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Opinião d'Ouro - 'Dá Deus botas a quem já tem sapatos…'

  • 2018-03-21 22:00


'O associativismo não é infelizmente uma realidade participada. Não persegue objectivos comuns. Toma parte quem pode. Quase que por direito divino. É medieval. Opaco. Terreno fértil para a mediocridade. Impera a ignorância disfarçada de intelectualismo. É uma evidência que nem a mais bem-intencionada parceria internacional consegue disfarçar, a letargia caseira. A um leigo soa quase como se já estivesse incluída na estratégia perder terreno.'

Se eu vivo num País governado por políticos que não ganharam as eleições; se esse País está à ponta de um Mundo onde as democracias produzem líderes próprios de um conto da Transilvânia; se no meu País se matam seres humanos ainda por nascer por vontade democrática; por que razão não haveria de respeitar o referendo da Associação de Estudantes de Coimbra?

Que me lembre, nenhuma. Agora que é acto consumado. Convivo bem com isso. Gosto de pensar que é democraticamente que nos temos de governar. O maior compromisso de um aficionado deve ser com a tolerância. A liberdade que quero para mim hei-de distribuir na mesma razão pelos outros. O conceito, embora abstracto, no entanto, nunca deverá ser confundido com estupidez. 

Tendo sido respeitados todos os pressupostos necessários, resta aceitar o valor do voto e descartar a resignação. Não interessa saber quantos mil votaram e quantos não o fizeram. Quem o fez foi porque achou que era relevante. Quem não foi fê-lo porque não encontrou motivação. Não era suficientemente importante. Como irrelevante é o impacto que números com quase uma década possam agora produzir, já que a fluidez dos restantes argumentos é a desconhecida.  

Sobra uma verdadeira lição. Um exemplo de como uma minoria (igual à da Festa) organizada e motivada consegue produzir objectivos. Com novas peças no tabuleiro, o pior nem é que um dos jogadores se recuse ir a jogo. O pior é que o faça por não entender as regras. A prova é sofregamente óbvia. Tudo se traduz em reacções a algo e raramente a uma acção feita em proveito de alguma coisa. Iguala uma performance do homem-estátua. Imóvel. Indiferente tanto a aplausos como a provocações. Distante, fria e vazia. De olhar confuso e perdido no horizonte.

Contrariamente ao que muitos defendem, não sou daqueles que pensam que a personagem somente se move quando cai a moeda no púcaro. Acho, antes, que o acto de permanecer imóvel constitui em si mesmo a mais elementar estratégia de defesa. Um resguardo. O restante é resultado de um processo natural consequência do caciquismo mais indígena a que condenaram a Festa Brava. Aqui, sim, e contrariamente ao que se passou em Coimbra, praticamente ninguém é eleito mas poucos, muito poucos, entendem falar por todos.

O associativismo não é infelizmente uma realidade participada. Não persegue objectivos comuns. Toma parte quem pode. Quase que por direito divino. É medieval. Opaco. Terreno fértil para a mediocridade. Impera a ignorância disfarçada de intelectualismo. É uma evidência que nem a mais bem-intencionada parceria internacional consegue disfarçar, a letargia caseira. A um leigo soa quase como se já estivesse incluída na estratégia perder terreno.

Seria bom que se sentisse igual empenho na defesa de Madrid, São Cristóvão, ou Coimbra. De nada vale todo o voluntarismo se não existir liderança, estratégia, iniciativa e coordenação. E que se não forem acompanhadas pela urgente renovação, produção e distribuição de argumentos sólidos, antecipação e compreensão, iniciativa e sensibilidade, conduzirão ao resultado prático que teria a primeira tentativa levada a cabo por oito Moços-de-forcado que resolvessem pegar o Intercidades à passagem pelo Entroncamento.

Mesmo assim, encontro-me convencido, que haveria sempre quem preferisse reparar no ataviamento e estado do calçado das vítimas. Não tanto por voyeurismo. Apenas por futilidade.