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Opinião d'Ouro - 'Uma novela espanhola'

  • 2018-07-10 23:00
  • Autor: Rodrigo Viana


'Era tão bonito que tudo fosse como eu pensava, em tempos de criança inocente e iludida. Todos os toureiros lidarem todos os tipos de toiros, com peso e trapio adequado à praça onde atuariam. Mas bem… não é assim. Viva a Festa Brava!...'

Com 24 anos de idade e aficionado desde que me lembro de existir, foi na minha cidade, Tomar, que comecei a assistir a espetáculos tauromáquicos. Uma semana antes da corrida de toiros acontecer e, ainda mal sabia escrever, já eu digitava, naqueles computadores bem antigos, mil e um nomes de toureiros, grupos de forcados e ganadarias, de forma a compor os meus próprios cartéis (achava-me um grande empresário…). Aquela ilusão, aquela vontade de querer ver todos os ídolos a tourear todas as ganadarias, todos os encastes… bem, cresci. E hoje aqui estou eu a escrever, pela primeira vez um artigo desta natureza, porque estou triste, desiludido, deprimido com certos acontecimentos, todavia empolgado por ter assistido a dois “corridões” no passado fim-de-semana.

Quinta-feira, 5 de Julho de 2018, anunciava-se uma extraordinária corrida de toiros mista, naquela que é a principal praça do país, aquela em que todos os intervenientes e aficionados gostam de estar presentes. Apresentavam-se duas grandes figuras do toureio apeado espanhol, e porque não dizer, mundial, Morante de la Puebla e José Maria Manzanares.

Ora, nos últimos anos sempre que este tipo de artista vem a Portugal, as ganadarias que lidavam eram espanholas, recordo Zalduendo, Garcigrande e Domingo Hernández, Núñes del Cuvillo, entre outras, o que foi bastante comentado e criticado por críticos taurinos, aficionados e demais público em geral. A solução encontrada pela empresa gestora da principal praça de toiros do país recaía, este ano, por reses da ganadaria portuguesa de Paulo Caetano, a qual foi aceite pelos artistas em questão.

Após a bronca que se deu naquela fatídica noite, gostaria de tecer algumas considerações e deixar algumas perguntas no ar. Sendo estas figuras muito bem pagas para vir tourear a Portugal, porque é que têm de ser as mesmas a selecionar as reses que pretendem lidar? Porque é que as reses selecionadas para tal acontecimento tinham três anos de idade, isto é, eram novilhos, quando se trata de uma corrida de toiros e os mesmos senhores lidam toiros de quatro e cinco anos em arenas espanholas? Será porque não há sorte de varas? Meus senhores, se não gostam, nem querem vir tourear toiros a Portugal, há por aí tanto bom artista à espera da oportunidade certa para aparecer e brilhar, como se viu na corrida do Colete Encarnado com Nuno Casquinha, por exemplo.

O principal motivo de revolta dos aficionados foi a falta de trapio apresentado pelos novilhos que saíram à arena. Escorridotes, afeitados em demasia… enfim, com todo o respeito nem em praças como Chamusca ou Nave de Haver, que são tauródromos de terceira categoria, estes novilhos seriam bem aceites e, a culpa não morre solteira. Foram apontados bastantes culpados para este trágico acontecimento, que comprometerá toda a restante temporada lisboeta. Em primeiro lugar, e o mais fácil de culpar, fora o delegado técnico tauromáquico, Manuel Gama pois segundo o RET, este podia rejeitar as reses, visto que as mesmas apresentavam uma apresentação deficiente. Ora não o culpo… pois sei que fosse o Pedro, o Tiago ou o João tudo teria sido igual. O segundo possível culpado é a empresa e a mesma veio dizer que “foram questões de bastidores, que julgo não terem interesse divulgar, sabendo todos que as coisas acontecem…’, aclarando que ‘a partir de agora irei fazer com que os touros que venham ao Campo Pequeno, venham com o tipo e a seriedade que a empresa determine…'.

Portanto, houve questões de bastidores, que na minha modesta opinião podiam e deviam ser tornadas públicas pois só com transparência e verdade é que a nossa festa vai por diante. Rui Bento Vasques acaba, então, por apontar um terceiro culpado, de forma indireta, os intervenientes no espetáculo. Pois bem, não sendo juiz, não irei apontar o dedo a ninguém, apenas referir que me deixa triste assistir a este tipo de novela espanhola, temporada atrás de temporada, seja na praça que for. Se vencemos no Parlamento, é aqui, que começamos a perder… e cada vez mais infelizmente! Que as novelas espanholas acabem no nosso país, pois a nossa festa merece mais, muito mais! E o público, aquele que paga bilhete merece sair feliz e não com desilusões atrás de desilusões.

Era tão bonito que tudo fosse como eu pensava, em tempos de criança inocente e iludida. Todos os toureiros lidarem todos os tipos de toiros, com peso e trapio adequado à praça onde atuariam. Mas bem… não é assim. Viva a Festa Brava!

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