A Feira da Golegã foi oficialmente inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (INPCI), numa decisão que reconhece a importância histórica e cultural de uma das mais emblemáticas manifestações equestres do país. O reconhecimento, publicado esta segunda-feira, 12 de outubro, em Diário da República, destaca a feira como um símbolo da identidade e do sentimento de pertença da comunidade local, valorizando uma tradição com raízes no século XVI.
A decisão consta do Anúncio n.º 282/2026, do Património Cultural, Instituto Público, e foi tomada por despacho de 2 de outubro, na sequência de uma proposta apresentada pelo Departamento de Bens Culturais daquele organismo.
Entre os fundamentos que justificam a inscrição, o documento oficial destaca «a importância da Feira da Golegã enquanto símbolo identitário e de pertença da comunidade local e a sua estreita ligação à comunidade equestre, em particular».
O reconhecimento representa um marco na valorização de uma manifestação cultural que atravessou vários séculos e que continua a desempenhar um papel central na identidade do concelho da Golegã e na preservação das tradições equestres do Ribatejo.
A origem da feira remonta a 1571, quando começou a realizar-se a Feira de São Martinho, inicialmente associada às atividades agrícolas e comerciais da região. Ao longo dos séculos, o certame foi evoluindo, acompanhando as transformações sociais e económicas do território e assumindo progressivamente uma forte componente equestre.
Essa evolução é precisamente um dos aspetos valorizados pelo Património Cultural, que fundamenta a inscrição nos «processos sociais e culturais nos quais teve origem, com raízes na Feira de São Martinho desde o século XVI, e se desenvolveu até à atualidade, com a integração de novos elementos ligados à prática equestre».
Ao longo da sua história, a manifestação foi adquirindo novas dimensões, passando a integrar a Feira Nacional do Cavalo, desde 1972, e a Feira Internacional do Cavalo Lusitano, desde 1999, consolidando a Golegã como um dos principais pontos de encontro da comunidade equestre nacional e internacional.
O cavalo, particularmente o de raça Lusitana, constitui o elemento central de uma tradição que todos os anos atrai à vila criadores, cavaleiros, profissionais do setor e milhares de visitantes, numa celebração que combina atividades equestres, costumes ribatejanos e momentos de convívio.
Realizada tradicionalmente na primeira quinzena de novembro, incluindo obrigatoriamente o dia 11, Dia de São Martinho, a Feira da Golegã mantém uma ligação profunda à comunidade local, preservando práticas e tradições transmitidas entre gerações.
O reconhecimento agora atribuído valoriza não apenas a realização anual do certame, mas também o conjunto de saberes, práticas e expressões culturais que lhe estão associados e que contribuíram para a construção da identidade da Golegã.
A inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial constitui um instrumento de identificação, valorização e salvaguarda de manifestações culturais consideradas relevantes para a memória coletiva das comunidades.
No anúncio publicado em Diário da República, o Património Cultural esclarece que a decisão teve em consideração os critérios estabelecidos no artigo 10.º do Decreto-Lei n.º 139/2009, de 15 de junho, na sua redação atual, que enquadra juridicamente a salvaguarda do património cultural imaterial em Portugal.
O organismo confirma ainda que foram cumpridos os procedimentos de audição dos interessados, de acordo com as disposições legais aplicáveis.
O anúncio, datado de 6 de outubro, é assinado pelo presidente do Conselho Diretivo do Património Cultural, João Soalheiro, formalizando uma decisão que coloca a Feira da Golegã entre as manifestações culturais oficialmente reconhecidas pelo Estado português pelo seu valor imaterial.
Este reconhecimento surge a poucas semanas da edição de 2026 da Feira Nacional do Cavalo, que voltará a realizar-se em novembro, reunindo na Golegã a comunidade equestre e milhares de visitantes.
Mais de quatro séculos e meio depois das suas origens, a Feira da Golegã vê assim reconhecida oficialmente a importância da sua história, das tradições que preserva e da ligação à comunidade que, ao longo das gerações, contribuiu para manter viva uma das manifestações culturais mais representativas do Ribatejo.
