Diretora do portal TouroeOuro.com e uma das vozes mais reconhecidas do jornalismo taurino em Portugal, Solange Pinto fala nesta entrevista sobre duas décadas dedicadas à tauromaquia, os desafios de ser mulher num meio tradicionalmente masculino e a necessidade de maior profissionalismo no setor. Sem rodeios, aborda episódios de discriminação, critica o conformismo que, diz, se instalou na Festa e defende um jornalismo independente e exigente. Entre memórias, convicções e projetos para o futuro do TouroeOuro, Solange Pinto deixa uma certeza: a paixão pela tauromaquia mantém-se intacta, mas acompanhada de uma visão cada vez mais crítica e determinada.
TouroeOuro – Solange, parece estranha esta entrevista, sobretudo fazer perguntas a uma pessoa que conheço tão bem…
Solange Pinto – Nada estranho. Se é verdade que partilhámos e partilhamos ainda a nossa afición e a colocamos em prática no TouroeOuro, também é verdade que somos pessoas distintas e que, tenho a minha peculiar forma de pensar e que sabemos ambos, que em muitos aspetos, não comungamos das mesmas ideias…
TeO – Não somos de resto, caso isolado no jornalismo…
SP – Claro que não. Olha por exemplo a Sandra Felgueiras e o Flávio Furtado. Trabalham juntos e têm uma evidente diferente forma de estar na comunicação.
TouroeOuro – Mas a ideia hoje, é que me expliques por exemplo, uma coisa que nunca abordámos claramente, até porque nunca me deste sinais de sentir que… era diferente. Como é ser mulher não no jornalismo, mas na tauromaquia?
SP – Nunca quis que fosse diferente. Nunca fiz com que fosse diferente. Mas vamos por partes. Ser jornalista mulher, assunto arrumado. Igual. Mas na tauromaquia e por muito que repudie o conceito, sim, foi diferente. É diferente.
TeO – Diferente em quê?
SP – Diferente. Quantas vezes ouvi coisas do género ‘se fosses homem levavas um par de estalos na cara…’, ou, ‘não falo com mulheres sobre isto…’. Sabes bem, que mesmo que todos tivessem consciência que era eu que escrevia, eras tu a sofrer as consequências.
TeO – Queres contar quem? Estás a acusar o mundo da tauromaquia de machismo?
SP – Nunca generalizar… O mundo da tauromaquia não é machista. Alguns dos seus intervenientes são. Hoje, não faz sentido, dizer quem… Foram coisas que já passaram, que fazem parte da minha história e ponto. Confesso que apenas tinha pena dos autores das frases. Só isso. E sabes bem, que nunca me acobardei a nada nem ninguém. Nunca deixei de ir a praça nenhuma por ser “ameaçada”. E fui… Aliás, sempre quis ir, dar a cara.
TeO – Vão acusar-te de falta de coragem.
SP – Que é coisa que nunca tive. Só estou numa fase da minha vida em que não me apetece arreliar. Mas atenção. Também fui muito bem tratada e por muita gente e é este o motivo pelo qual não devo, nem posso generalizar.
TeO – Sei que já houve quem dissesse, que não percebes nada disto.
SP – Ah claro. Muita gente. E acho graça. Antes chateava-me com essas coisas. A juventude e o sangue na guelra faz-nos reagir a esses comentários. Hoje olho para trás e digo: “perdoai Senhor, não sabem o que dizem…’.
TeO – Não sabem o que dizem porquê?
SP – Porque a tauromaquia não é estanque. Porque a tauromaquia não é concisa. Porque a tauromaquia tem leituras e interpretações diversas. Ninguém é dono da verdade ou mesmo da sabedoria absoluta.
TeO – Também dizem que nunca escreveste com termos técnicos.
SP – Pois claro que não. E sempre tentei que assim fosse. O mal da tauromaquia em todas as suas vertentes, é estar encerrada numa bolha. Essa bolha não permite a entrada de novos mundos. Os cinzentos da tauromaquia, até o público criticam. O léxico da tauromaquia é riquíssimo e não o devemos abandonar. E sim, é verdade que um escriba tem o dever de “ensinar”, educar… mas, também tem o dever de escrever de forma a que todos entendam. Simplificar, tornar apelativo e mais inclusivo. A tauromaquia, deve ser para todos. Até para aqueles que não sabem o que é um volapié…
TeO – Hoje é mais fácil uma mulher circular pelas trincheiras?
SP – Hoje as mulheres circulam pelas trincheiras. Antes e nos meus inícios, estavam mas não circulavam…
TeO – É uma crítica?
SP – É. Mas não às mulheres. A todos quantos não sabem estar numa trincheira. E por isso cada vez podem estar menos. Correm, pulam, andam atrás do cavalo. Enfim, não percebem que a criatividade é a melhor das armas. Mostrar, mas mostrar diferente. Faz-lhes imensa confusão fotografar da bancada. Como se isso fosse determinante para mostrar o que quer que seja.
TeO – Mas também te insurges quando os repórteres de imagem do TouroeOuro não tem acesso à trincheira.
SP – Óbvio. Mas pela triagem que é feita. As escolhas. Pela incapacidade de distinguir o que faz a diferença. Pela incapacidade de distinguir o que é um captador de imagens para as redes sociais ou o que é um fotojornalista para publicação de imagens como apoio de um texto.
TeO – Continua a faltar profissionalismo na tauromaquia?
SP – Cada vez mais. Falta profissionalismo. Sobram cagões. E abundam os oportunistas.
TeO – Tens noção do que estás a dizer…?
SP – Sempre tive. Mas o caminho continua a ser o errado. Em Portugal não se distingue um órgão de comunicação de uma página de Facebook ou Instagram. Está tudo dito. Em Portugal, continua a condicionar-se opinião… e por isso, é muito mais cómodo dar a mão a quem não a emite.
TeO – Porque…?
SP – Porque assim está tudo controladinho. Ninguém critica. Os toureiros estão sempre bem, só que não; as praças sempre cheias, só que não… Das maiores birras que tive por parte de um Figurão do Toureio, foi o fato de eu ter dito que a praça não estava esgotada. Ridículo. Esquecem-se que as redes sociais, as tais que “eles” acham que não imitem opinião, têm em cada um dos espetadores um potencial crítico e um potencial captador de imagens que contem a verdade. Isto para dizer, que a mentira agora não vende e é facilmente “desmontada”.
TeO – Continuas a ser apaixonada pela tauromaquia?
SP – Completamente.
TeO – Mas há quem diga que às vezes escreves “zangada”.
SP – Não. Nunca. Sou é mais exigente. E custa-me ver que as pessoas, o público, faça um esforço financeiro gigante para comprar o bilhete e muitas vezes levam uma mão cheia de nada.
TeO – Crítica aos artistas?
SP – A todos. Aos artistas que vão cómodos. Aos empresários que muitas vezes ou a maioria das vezes montam cartéis que são mais do mesmo. Crítica por se pagar em média 30 euros para estar a comer pó. Crítica por se ir comprar um bilhete mergulhada nas ervas que crescem a bravio e não se limpam… Crítica por tantas coisas que seriam facilmente corrigíveis.
TeO – Vais a tantas corridas como antes?
SP – O TouroeOuro está onde é importante que esteja. Eu, estou onde me apetece estar. Estou mais seletiva. E defendo a Festa, se mostrar o nela há de melhor… Precisamente para que nunca deixe de estar apaixonada pela tauromaquia.
TeO – E os vetos. Toiros e Tauromaquia, Rui Bento…
SP – São o que são. O Sócrates também ainda não foi condenado. É inocente portanto.
TeO – O que tem isso a ver?
SP – Tudo. É o estado do nosso país. Onde se pode tudo. Até o que não se pode. Essas duas empresas ou gestores ou sei lá, não entendem que mesmo pagando uma renda, há obrigações. Mas não se pode pedir mais. Ninguém tem culpa de pensar “pequeno” e pensar como se pensava antigamente. Não evoluíram.
TeO – Como analisas a tauromaquia atualmente.
SP – Enquanto houver o síndrome da Figura, bem.
TeO – E há?
SP – Em Espanha sim. Cá não.
TeO – Concretiza.
SP – Cá houve e no meu tempo, houve João Moura, talvez Rui Fernandes… Lá, e repito, no meu tempo: Ponce, Morante, Juli e agora Roca Rey.
TeO – Mas há uma serie de outros bons toureiros.
SP – Sim, claro. Mas Figuras icónicas, são outra coisa. São as que nascem diferentes. Têm uma aura distinta… Faltou-me Pablo e Ventura, claro. E só!
TeO – Sabes o risco de nomear…
SP – Já deverias saber que me dá igual.
TeO – Há novos valores na tauromaquia? Há possibilidade de futuro?
SP – Há. Mas têm que dar mais, muito mais. Há um toureiro que gosto imenso. Mas a irregularidade o ajuda a dar o salto.
TeO – E o toureio a pé em Portugal?
SP – Não há. Há sonhos, há ilusões, mas teria de haver oportunidades, entrega e humildade.
TeO – Quem são os teus ídolos no toureio?
SP – (risos)… Resposta tão óbvia. João Moura. Sempre e nunca mudará.
TeO – E a pé?
SP – Nos meus tempos de gaiata, Vítor Mendes. Nos meus tempos seguintes… José Miguel Arroyo ‘Joselito’ e depois os que disse atrás que considero figuras icónicas.
TeO – Este ano o ToureOuro faz 15 anos. Alguma novidade que queiras hoje partilhar?
SP – É cedo. Mas sim, haverá novidades.
TeO – Mudará alguma coisa?
SP – Não. O TouroeOuro tem uma linha da qual nunca abdicarei, da qual nunca abdicaremos. Verdade. A nossa verdade. Sentimento. Vontade de fazer a sério, com qualidade e diferente.
TeO – Em vinte anos no jornalismo taurino, alguma coisa mal resolvida?
SP – Não! Tudo resolvido com quem tinha que estar.
TeO – Até com o Alvarenga?
SP – Principalmente com ele. Sou-lhe grata, gosto dele, mas temos pontos de vista diferentes. É válido, creio eu.
TeO – No fim do ano que passou, passaste por um percalço. Queres contar?
SP – Sim, creio que é sabido que fui atropelada. Fratura e colapso vertebral. Vou ser submetida a uma cirurgia à coluna e se Deus quiser, ficará tudo bem. Como sou ‘osso duro de roer’, embora com muitas dores, faço tudo. Mas aprendi uma coisa: num segundo, pode mudar tudo.
TeO – Estarás afastada das “arenas”?
SP – Isso sim (risos). Mas das bancadas, não.
TeO – Mulher corajosa como sempre foste?
SP – Cada vez mais. Não fui feita para desafios pequenos.
TeO – Como apelidarias este ano, tanto a nível pessoal, como no TouroeOuro?
SP – 2026 – O Ano da Mudança!
TeO – E para terminar. O que é ser Mulher na tauromaquia?
SP – É sensibilidade extra…

