No Oeste, nesta altura do ano, há quem ande pelos pomares a preparar mais uma colheita. É o tempo do trabalho, da espera e daquela expectativa de quem sabe que, por muito que se conheça a terra, há sempre coisas que só se descobrem quando chega o momento. Esta noite, a Praça de Touros de Caldas da Rainha recebeu a Corrida de Touros dos Agricultores do Oeste, numa noite que foi também de homenagem póstuma ao saudoso forcado Horácio Lopes. Uma corrida que colocou frente a frente seis ganadarias num concurso que trouxe à arena diferentes encastes, diferentes formas de criar e diferentes maneiras de entender o toiro bravo. E, como em qualquer colheita, só quando chegou o momento de saírem dos curros soubemos aquilo que cada um trouxe consigo.
O cartel, esse, reunia a cavalo Luís Rouxinol, Gilberto Filipe, João Moura Caetano, Manuel Telles Bastos, Luís Rouxinol Jr. e Paco Velásquez, sendo que nas pegas estavam os Forcados Amadores de Lisboa e os Forcados Amadores de Caldas da Rainha.
O primeiro toiro da noite tinha o ferro de Irmãos Moura Caetano e teve lide a cargo do mais antigo de alternativa, Luís Rouxinol. Em tipo com o encaste Murube, volumoso e de locomoção cadenciada, foi um toiro que se foi parando com o avançar da lide e que também foi aprendendo. Isso notou-se de forma evidente na cravagem do segundo curto da série, quando se adiantou à montada do cavaleiro de Pegões. Foi uma lide pautada pela experiência, onde foi necessário dar tempo ao oponente para que pudesse respirar e, dessa forma, lhe deixar a ferragem da ordem. Terminou a sua passagem pela arena caldense com um par de bandarilhas no corredor, que, como se sabe, é do agrado do conclave.
Gilberto Filipe sorteou o exemplar do Eng. Jorge de Carvalho, que se mostrou com mobilidade e alguma aspereza no momento da reunião. Após iniciar a série de curtos sem o acoplamento desejável no momento da cravagem, corrigiu as distâncias nos dois que se seguiram, deixando duas bandarilhas de excelente nota, com o ajuste perfeito que se exige. Terminou a sua atuação diversificando as sortes, cravando um ferro em sorte de violino e outro com a sua montada sem cabeçada, saindo por cima e com o público de pé, de forma merecida.
O terceiro da ordem, com o ferro de Palha era bruto e apertava após a cravagem das sortes, causando desconforto, numa fase inicial, a João Moura Caetano. A cravagem da terceira da série foi o destaque maior de uma atuação que teve pelo meio excessiva presença de peões de brega, bem como duas passagens em falso, tendo terminado a sua faena cravando um palmito, já com o astado imóvel no centro da arena.
O quarto da ordem pertencia à ganadaria de Canas Vigouroux e, desde a sua aparição na arena, percebeu-se que iria dificultar o labor de Manuel Telles Bastos. Da fase de compridos, destacou-se o terceiro, numa boa sorte à tira. O animal era reservado e o seu comportamento não foi linear, tendo o ginete de se adaptar às reações extemporâneas do oponente. Como é seu apanágio, impôs o seu conceito clássico, destacando-se o momento da cravagem da segunda curta da série pela forma como desenhou a sorte e conseguiu uma cravagem de nota relevante.
O exemplar de Passanha inutilizou-se aquando da sua saída ao ruedo, invertendo-se a ordem de lide. Saiu, desta forma, Paco Velásquez para lidar o astado de Fernandes de Castro. Foi um animal que pouco transmitia e que dificultou, por esse motivo, o momento da cravagem, levando à ocorrência de um ferro comprido de má colocação e de uma passagem em falso no momento que antecedeu a segunda curta. Foi uma faena que evoluiu em crescendo, com ponto alto na terceira e quarta bandarilha da série, onde a lide encontrou os seus melhores momentos.
Luís Rouxinol Jr. regressou à arena para lidar o toiro sobrero, pertencente à ganadaria Canas Vigouroux. Embora sem ser uma estampa, permitiu ao ginete de Pegões luzir-se, iniciando a fase de curtos com uma bandarilha de boa nota, numa sorte frontal cujo cingimento na reunião foi fator preponderante. Após um momento de menor felicidade, com uma passagem em falso, o cavaleiro voltou a ter momentos de qualidade, destacando-se na cravagem das últimas três curtas, após acentuadas batidas ao pitón contrário que fizeram o público levantar-se e vibrar de emoção nas bancadas.
Nas pegas, os Forcados Amadores de Lisboa tiveram pela frente uma noite exigente. Duarte Mira, depois de brindar à família do homenageado, antigo elemento da formação lisboeta, mostrou poder durante o cite, controlando todos os tempos da sorte. Quando carregou, o toiro investiu, havendo um momento de reunião duro, com o astado a investir por baixo, levando a que, nos médios, toiro e forcado dessem uma cambalhota, mantendo o último sempre agarrado à córnea. Concretização ao primeiro intento com marcas na face do forcado.
Tomé Batalha foi o homem que se seguiu e pese embora o momento da reunião não tenha sido perfeito, dada a forma lateral como o animal colocou a cara, teve o mérito de se acoplar, fechando-se que nem uma lapa para concretizar ao primeiro intento, havendo lugar a uma ajuda coesa da restante formação.
Terminou a atuação do grupo a dupla Ricardo Nunes e Renato Avelar que concretizaram uma pega de cernelha na primeira entrada, após alguma dificuldade em que o animal encabrestasse.
Pelos Forcados Amadores de Caldas da Rainha, Joaquim Lino pouco teve de citar para ter animal por onde se agarrar. Fechou-se à córnea com eficácia, tendo uma viagem tranquila até às trincheiras, onde acabou por consumar ao primeiro intento.
António Appleton não conseguiu reunir com o toiro que lhe tocara na primeira tentativa, dada a reação inesperada do animal nesse momento. Na segunda tentativa, teve de o ir buscar aos seus terrenos, conseguindo fechar-se com afinco à córnea, suportando os derrotes laterais que lhe foram infligidos, ainda que de baixa amplitude.
António Prôa teve a missão de encerrar o capítulo das pegas. Citou até aos médios, carregando nesse momento a sorte. Reuniu de forma eficaz, suportando derrotes verticais de amplitude relevante, sendo importante a intervenção do segundo ajuda para que conseguisse consumar na tentativa inicial.
Com três quartos de lotação, a corrida foi dirigida pela delegada técnica tauromáquica Ana Pimenta, assessorada pelo Dr. José Luís Cruz e pelo cornetim José Henriques.
No concurso de ganadarias, o prémio de Apresentação foi atribuído ao exemplar de Canas Vigouroux, enquanto o de Bravura foi para o de Palha.
No final, a terra e a arena acabaram por se encontrar. Entre toiros de diferentes origens, comportamentos e exigências, houve quem soubesse esperar, adaptar-se e encontrar o momento certo para colher. Gilberto Filipe e Luís Rouxinol Jr. tiveram a capacidade de levantar o público das bancadas, deixando água na boca para os frutos que a próxima colheita poderá trazer.
Por: Rodrigo Viana

