“Não vás ao mar, Toino, está o mar ruim…” já dizia a canção popular, interpretada, entre outros, pelo grupo Sete Saias, que homenageiam o traje típico das mulheres nazarenas, bem como a cultura local. Ora, numa noite de festa em honra de Nossa Senhora da Nazaré, o conselho até podia ser levado a sério. O problema é que, em vez de ficar em terra, o Toino resolveu trocar o mar pela arena. E se no mar se vai buscar sardinha, na praça vai-se buscar aquilo que só uma corrida de toiros consegue dar: emoção, risco e aquelas “doses de bravura” e incerteza que não se compram nem se ensaiam.
E, quem conhece, sabe que esta vila piscatória tem coisas. Tem o mar ali ao lado, tem a Senhora a olhar pelas suas gentes, tem as suas tradições e uma praça que, quando se enche para uma noite assim, parece fazer parte da própria festa. Lá fora, o Atlântico podia estar manso ou a “mostrar os dentes”. Lá dentro, foram os seis toiros das ganadarias David Ribeiro Telles e Passanha que ditaram o rumo do espectáculo.
E talvez seja essa a graça de juntar a velha canção popular a uma corrida de toiros. Porque há muito mais do que uma simples coincidência geográfica. O mar e o toiro têm essa coisa em comum: nenhum deles respeita demasiado aquilo que se tem planeado. Podemos saber para onde vamos, mas nunca sabemos exactamente o que vamos encontrar. “Se vais ao mar, Toino, fico sem ti…”. Na praça, ninguém quer ficar sem ninguém. Mas todos sabemos que, a partir do momento em que o primeiro toiro salta à arena, começa a ser traçado o rumo do festejo. Fala-se dos homens que tinham pela frente seis animais, dos cavalos, dos ferros e das pegas. É uma conversa onde cada gesto conta e onde um segundo de hesitação pode transformar uma boa noite numa noite que ninguém esquece pelas piores razões.
E foi assim que começou esta viagem. Não ao mar, como queria a Maria da canção, mas ao ruedo nazareno.
António Ribeiro Telles, por muitos conhecido como “Toino”, foi o primeiro a entrar em cena e brindou, com emoção, a um dos públicos que considera como seu. O toiro, de David Ribeiro Telles, ostentava o ferro da casa e era, como os restantes, volumoso para a arena da Nazaré, ganhando ainda mais presença pela forma como enchia o pequeno ruedo. António recebeu-o com três compridos de qualidade, à tira, um deles de praça a praça, antes de entrar numa fase de curtos onde foi procurando as distâncias certas perante uma rês que aparentava docilidade e que possuía condições de lide.
O segundo curto foi de boa nota, ainda que, no quarto, depois de uma passagem em falso, tenha desenhado aquela que foi a reunião mais cingida e, consequentemente, emotiva da sua actuação. E assim se fez a primeira travessia da noite. O Toino foi ao mar e regressou com saúde.
Manuel Telles Bastos lidou o segundo, que cedo mostrou algumas dificuldades. Mansarrão, pouco móvel e muito atento a tudo o que se mexia para lá das trincheiras, obrigou o cavaleiro a trabalhar mais para o fixar do que aquilo que seria desejável. O ginete deu a volta ao texto, dentro do seu estilo, sem redondear, destacando-se no terceiro curto da série, que foi cravado de cima a baixo, com o toiro cada vez mais desligado, terminando parado nos médios, quase a dizer que dali não queria sair. O mar, desta vez, estava algo revolto e a sardinha também não parecia com vontade de entrar na rede. E quando a sardinha não entra…
E depois veio Miguel Moura. E aqui, desculpem-me, mas alto e para o baile!
O terceiro da ordem, primeiro Passanha da noite, saiu com alegria e deu quatro voltas perseguindo a montada do ginete de Monforte junto às tábuas, pelo perímetro da arena, recebendo de imediato o entusiasmo de uma praça que percebeu que dali vinha algo positivo.
Dois compridos de qualidade abriram caminho para uma actuação em que Miguel esteve simplesmente irrepreensível. Houve uma brega cadenciada, de enorme qualidade, levando o toiro embebido na garupa e uma leitura perfeita dos terrenos. Por diante ou em terrenos de dentro, junto às tábuas, encontrou sempre o sítio certo para as cravagens, com reuniões cingidas e uma execução que não me deixa margem para qualquer reparo.
As gentes que esgotaram o albero nazareno entraram consigo na lide. Primeiro com as palmas, depois a compasso e, finalmente, de pé, numa dessas respostas do público que dispensam qualquer explicação e cujo soundbite deve mesmo ter sido registado em São Martinho do Porto. O ginete fechou com dois palmitos, um deles à meia-volta, numa actuação de gala. Daquelas em que tudo parece estar no lugar, em que a elegância não é um acrescento, mas faz parte da própria lide. E, se numa noite de gala há quem aperte o nó do papillon antes de sair de casa, Miguel Moura deu-o aos olhos de todos, sem deixar faltar nada.
Foi, até aqui, a lide da temporada! E não, não é uma frase feita, ou um daqueles triunfos apoteóticos que tantos usam para promover o inqualificável. Realmente, olhando para esta actuação do princípio ao fim, é difícil encontrar onde apontar o dedo. O toiro ajudou, naturalmente, e muito, mas o cavaleiro soube aproveitar cada uma das suas qualidades e dar-lhe a dimensão que a noite pedia.
A volta ao ganadeiro foi, por isso, tão justa quanto a que se concedeu ao cavaleiro. Havia toiro para uma grande lide e houve cavaleiro para a construir. E houve também um público que soube reconhecer o que tinha acabado de ver, porque há momentos em que a prata das palmas parece valer mais do que qualquer discurso.
Parreirita Cigano teve pela frente outro Passanha, desta feita incómodo, que se empregava muitas vezes a chouto e com pouca fijeza, dificultando desde logo a construção da lide. A fase de curtos só ganhou maior expressão a partir do terceiro, quando os acordes da Banda de Arruda dos Vinhos soaram, sendo que apesar da vontade do ginete em diversificar, encontrou no seu oponente pouca vontade de contribuir.
Nas abordagens frontais que desenhou nem sempre conseguiu o cingimento pretendido, culminando a sua passagem por esta praça cravando dois palmitos, que acabam sempre por agradar ao público presente. Nem sempre o mar dá peixe e há noites em que é preciso remar, remar e pouco se consegue pescar.
António Prates teve em mãos o último dos Passanhas que, desde a sua saída, impôs respeito. A série de curtos começou com uma passagem em falso, depois de uma batida ao pitón contrário onde a mão não esteve tão certeira como seria desejável. Na correcção, abriu ligeiramente o quarteio, retirando-lhe algum mérito à cravagem. O segundo curto foi de nível superior com o jovem a acertar nos tempos desde a batida até à reunião, deixando uma bandarilha de boa nota. E foi depois do terceiro curto que a música apareceu. Bem.
E este “bem” merece ser dito. José Soares esteve, de um modo geral, correcto na condução da corrida, sabendo ler o que se passava na arena e, sobretudo, não oferecendo música antes de ela ser conquistada. Numa noite em que a praça estava predisposta à festa, seria fácil deixar-se levar pelo ambiente. Não o fez. Esperou. E quando a lide de António Prates ganhou consistência, a música apareceu como deve aparecer: não para fabricar triunfos mas para acompanhar atuações meritórias.
Paco Velásquez teve uma noite difícil. O toiro inicialmente destinado à sua lide acabou por sair com evidentes debilidades, recorrendo-se ao sobrero da casa Ribeiro Telles que, logo de saída, investiu na montada, apertando o binómio de forma violenta contra as tábuas, felizmente sem os conseguir derrubar.
E a partir daí, diga-se, a lide nunca encontrou o caminho que o cavaleiro certamente desejaria. Houve diversas passagens em falso, situação que se devera em grande medida ao comportamento de um astado que denotara pouca mobilidade e nenhuma vontade de colaborar. Até ao fim, mais um toque e pouco sumo para espremer.
Mas há algo que deve ser registado: Paco nunca deixou de procurar soluções. Podia a noite estar a fugir-lhe das mãos, mas continuou a tentar virá-la. Saiu da arena naturalmente insatisfeito e aplaudo o facto de ter recusado dar volta de agradecimentos quando a mesma lhe fora autorizada, naquele que é o único caso de indulgência posso apontar à inteligência. O ginete mostrou dignidade, promovendo e educando a afición, ao aceitar que nem sempre se pode estar bem. Acima de um toureiro com vontade legítima de triunfar, foi um senhor.
Nas pegas, os Amadores de São Manços começaram com Manuel Valadas que enfrentou um toiro que investiu, impondo derrotes laterais, não permitindo ao forcado fechar-se logo na primeira tentativa. À segunda, houve melhor reunião, mas o derrote, mais seco, voltou a dificultar a consumação. À terceira, finalmente, o forcado concretizou, com uma viagem limpa e sem aparentes dificuldades.
Rodrigo Grilo encontrou um toiro que andava a chouto, repetindo de algum modo o comportamento que já tinha mostrado na lide a cavalo. Não era fácil alegrar aquela investida, mas Rodrigo conseguiu ser eficaz, concretizando a pega na tentativa inicial.
O Aposento da Chamusca teve em João Armando o protagonista de uma das pegas mais trabalhosas da noite. Recebeu o toiro nos médios, com uma entrada inicialmente prometedora, mas quando as ajudas se aproximaram o animal infligiu um derrote violento, que dificultou a acção do grupo. A segunda tentativa teve uma reunião correcta, mas faltou prontidão à formação e o forcado acabou desfeitado. À terceira, com as ajudas carregadas, o toiro retirou a cara no momento da entrada da formação, deixando o forcado praticamente sozinho. O segundo ajuda ainda teve uma intervenção enorme, mas não chegou para resolver. Foi preciso chegar à quarta tentativa, com as ajudas carregadas, para concretizar a sesgo.
Vasco Coelho dos Reis teve a vida mais facilitada. Chamou a atenção do toiro através de palmas e da sua voz, carregou a sorte por duas vezes, tendo o mérito de reunir com qualidade. Durante a viagem ainda teve de suportar a voltareta do toiro, estando o grupo competente a ajudar, sendo a pega consumada ao primeiro intento.
Pelos de Caldas da Rainha, António Appleton enfrentou um toiro que lhe ofereceu uma mangada alta. Soube esperar a descida do derrote para se acoplar e, a partir daí, o grupo entrou muito bem, sem conceder espaço nem facilidades. Pega à primeira.
Joaquim Lino teve pela frente uma tarefa bem mais complicada. Um derrote alto impediu a efectivação na primeira tentativa. À segunda, o toiro, que estava quase inteiro, colocou a cara dura, levando o primeira ajuda, que colocara tudo de si pelo colega, a ter uma queda feia que causou apreensão. Felizmente, tudo acabou, aparentemente, bem no que respeita à sua saúde. Na terceira, já com o animal menos disposto a investir, o grupo foi incapaz de resolver, sendo que apenas à quarta tentativa se concretizou a pega, com ajudas bastante carregadas.
Devo ainda destacar a procissão das velas, que antecedeu o festejo, criando-se um ambiente fantástico quer no exterior, quer no interior da praça, com a interpretação de Teresa Tapadas de dois fados a acompanhar o momento solene, bem como a empresa pelo primoroso curro apresentado, com presença e trapio acima da média para uma praça desta tipologia. Num ano em que eu próprio já critiquei a apresentação de curros, tenho de ser justo e reconhecer quando há coisas bem feitas. E aqui, não há dúvidas.
A corrida foi dirigida pelo delegado técnico tauromáquico José Soares, assessorado pelo Dr. José Luís Cruz, numa noite em que, salvo a questão já referida na última lide, teve uma actuação segura, deixando que os protagonistas fossem os que estavam dentro da arena. E isso, numa corrida, também é dirigir bem: saber quando se deve intervir e, talvez mais importante, saber quando não se deve.
Mas a canção fica. “Não vás ao mar, Toino, está o mar ruim…” Ali, o Toino foi ao ruedo e regressou com saúde. Houve quem encontrasse águas paradas e outros entraram no canhão, remando, remando e pouco encontrando.
E, no meio de tudo isto, num autêntico passeio dos prodígios, houve Miguel Moura, com uma leveza de quem parece não encontrar obstáculos na arena e a precisão de quem sabe o que fazer para encher a lota.

Texto e fotos: Rodrigo Viana
