Por: Rodrigo Viana
Amália tinha destas coisas. Dizia meia dúzia de palavras e parecia que tinha estado toda a vida a ver corridas de toiros.
Porque isto também é um bocado assim. Anda-se por cá sem saber muito bem onde se vai chegar. Corre-se atrás de uma tarde, de um toiro, de um triunfo, de qualquer coisa que faça valer a pena todas as outras que não valeram tanto. Uns encontram o caminho. Outros perdem-se pelo meio. E há os que, por muito que corram, continuam sem conseguir sair da cepa torta.
É a vida de quem anda nisto. Não há garantias, não há fórmulas e muito menos há duas tardes iguais. Pode haver talento e faltar o toiro. Pode haver toiro e faltar a tarde. Pode estar tudo no sítio e, ainda assim, qualquer coisa correr ao lado. E também pode acontecer o contrário: aparecer aquele momento que ninguém estava propriamente à espera e, de repente, tudo fazer sentido.
Talvez seja por isso que se volta sempre. À Palha Blanco, então, volta-se com ainda mais razões. Uma praça que leva 125 anos de histórias às costas não precisa que lhe expliquem o que é uma temporada. Já viu triunfos que pareciam impossíveis, tardes que ficaram na memória e outras que mais valia terem ficado pelo caminho. Já viu gente chegar convencida de que era desta e sair a perceber que ainda não era. E também já viu muitos descobrirem ali aquilo que andavam há tanto tempo a procurar.
E foi neste cenário que se juntaram Miguel Moura, Tristão Ribeiro Telles e o matador de toiros Daniel Luque, com exemplares das divisas de Murteira Grave, Sommer d’Andrade e Falé Filipe e os grupos de forcados de Montemor e Vila Franca de Xira. Um cartaz com coisas suficientes para prometer muito, mas, como todos os cartazes, incapaz de garantir o que realmente interessa.
Porque “se não sabes onde vais, por que teimas em correr?” Talvez seja precisamente isso que explica tanta coisa nesta vida. O cavaleiro continua a procurar a reunião certa, o matador procura o momento em que o toiro se entrega ao capote e à muleta, o forcado corre para a cara de um animal que nunca lhe prometeu absolutamente nada. Todos sabem que o caminho pode acabar em triunfo. Nenhum sabe, verdadeiramente, onde acaba.
E o primeiro a tentar descobrir foi Miguel Moura. Saiu-lhe um Murteira Grave altivo, daqueles que entram na arena a lembrar a todos que ali há um toiro e que convém não nos esquecermos disso. Numa fase inicial, com investidas curtas e secas, com pouca transmissão, não facilitou a vida ao cavaleiro. A sorte de gaiola com que abriu funções foi correcta, sem ser de estrondo, até porque o toiro saiu a chouto dos currais e não ofereceu o necessário para transformar o momento em mais do que isso. O primeiro curto da série foi de muitos quilates e começou a parecer que algo bom estaria para aparecer. Nem sempre houve investida suficiente para a condução ladeada e cadenciada que Miguel gosta de procurar, mas o Grave veio a mais e, sobretudo no remate da terceira bandarilha, começou a dar outra matéria ao cavaleiro. E aí apareceu Miguel. Não é um artista de grandes gestos para a bancada, dos que precisam de levantar os braços ao céu ou de transformar cada ferro num golo. Chega ao público de outra maneira. Pela qualidade. Pelo que faz em cima do cavalo. E talvez seja por isso que o aplauso, quando aparece, tenha outro sabor. Terminou com um palmito de boa nota, certeiro, e saiu deixando a sensação de uma lide que foi encontrando o caminho à medida que o toiro o foi permitindo.
Depois aconteceu uma daquelas coisas que também fazem parte desta estranha forma de vida. O Sommer d’Andrade que lhe estava destinado saiu condicionado das mãos e acabou por ser mandado recolher. Miguel teve de esperar e, após a inversão da ordem de lide, apareceu novamente o ferro de Murteira Grave.
Houve silêncio. E pareceu-me estranho. Só pareceu. Porque “coração independente, coração que não comando” talvez também sirva para explicar Miguel Moura. Não precisa de ruído para chegar. Não precisa que lhe preparem o momento. Às vezes basta-lhe encontrar o toiro, acertar no sítio e deixar que o que faz fale por ele. A segunda lide foi crescendo, embora com menos som que a primeira. O melhor momento surgiu depois da cravagem e do remate da segunda bandarilha, quando cavalo e toiro pareceram finalmente entender-se. E, no fim, outro palmito, desta vez em terrenos de dentro, passando pelo buraco da agulha com a eficiência na colocação já evidenciada. Foi uma tarde importante do ginete monfortense na Feira de Outubro.
Tristão Ribeiro Telles quis responder logo de seguida com um Sommer d’Andrade de enorme volume e cara aberta. Tentou a porta gaiola, mas o pouco ajuste na reunião tirou-lhe brilho. O toiro tinha mobilidade, como mostrou no momento que antecedeu a segunda bandarilha e nos remates das sortes, momento em que perseguia a montada com vontade, faltando-lhe, ainda assim, algum som no momento da reunião. Talvez tambem por isso Tristão se tenha destacado mais na brega que no momento da cravagem. A terceira bandarilha foi o momento de maior luzimento, permitindo-lhe ouvir os acordes do Ateneu Artístico Vilafraquense. Concessão de música que aceito, ainda que acompanhada por alguns pitos de quem entendeu que não havia motivos para tal.
E talvez seja aqui que a letra de Amália volte a fazer sentido, sem ser preciso forçá-la: “que todos os ais são meus”. Porque numa corrida destas há sempre alguém a querer chegar mais depressa ao lugar onde ainda não chegou.
Tristão parece, por vezes, correr demasiado para esse lugar. A segunda passagem teve outro cenário. O castanho da Galeana, ovacionado aquando da recolha e merecedor de volta à representante da ganadaria, entrou com outra qualidade. Tristão voltou a tentar a gaiola e voltou a não conseguir o que pretendia, desta vez porque o animal perdeu as mãos à saída dos curros e o momento da cravagem se perdeu.
Mas depois apareceu uma sorte de enorme mérito. O cavaleiro conseguiu consentir uma investida de largo, praça a praça, e cravou com acerto nos médios da Palha Blanco. Ali houve caminho. Ali houve toureio. O problema é que o toiro começou progressivamente a adiantar-se às montadas no momento da reunião e o ginete, em vez de contrariar isso com mais tempo, pareceu querer contrariá-lo com mais velocidade e a velocidade, neste caso, jogou contra ele. Os ferros foram ficando mais traseiros, alguns descaídos, e aquilo que poderia ter sido uma lide de grande nível foi perdendo precisão à medida que avançava. É uma pena porque há matéria. Há cavalos, há valor, há capacidade de andar com o toiro e há momentos que o provam. Falta outra coisa. Temple. Não é por a bancada produzir o soundbite do momento que uma lide passa a ser melhor. O público tem direito ao seu entusiasmo, naturalmente. Mas também o cavaleiro tem a obrigação de perceber que nem tudo o que faz barulho está bem feito. Há um caminho a percorrer. E o temple, caro Tristão, é, sem dúvida, uma das estações desse caminho.
Depois de dois toiros volumosos a cavalo, a entrada em cena do primeiro exemplar de Falé Filipe, de escassa apresentação, provocou os inevitáveis pitos e alguns “miaus” vindos das bancadas. E aqui não há como fugir ao assunto: nas corridas mistas, há que ter cuidado com as amplitudes de peso e, sobretudo, com o trapio. Não é uma questão de pedir monstros. É uma questão de coerência. Porque quando a diferença é demasiado evidente, corre-se o risco de retirar mérito ao artista antes de este sequer começar.
Daniel Luque começou, ainda assim, por fazer aquilo que sabe fazer. De capote, um quite de chicuelinas ajustadíssimas, daquelas que têm tanto de recurso técnico como de capacidade para incendiar uma praça. E incendiaram. O público gostou e, por momentos, pareceu esquecer-se de tudo o resto. Mas o toiro não era simples. Nas primeiras séries pela direita faltou colaboração e Luque percebeu rapidamente que o caminho estava do outro lado. Pela esquerda encontrou o melhor pitón e a terceira série de naturais foi a melhor da faena. Faltou algum temple, sobrou alguma velocidade e houve momentos em que pareceu tudo feito um pouco mais depressa do que o toiro pedia. No fim, vieram alguns pormenores mais tremendistas, que naturalmente encontram eco em parte do conclave.
Mas o verdadeiro Luque apareceu no segundo.
Negro bragado corrido, cinco anos cumpridos e, só por estar menos afeitado que o anterior, com outra presença. Na primeira série de derechazos apareceu finalmente o temple que tinha faltado na primeira passagem. Houve sentimento, profundidade e outra relação entre homem e animal. Só que o Falé Filipe pareceu sofrer um curto-circuito, deixando de se entregar à faena bem como de se empregar como seria necessário. E, quando a diretora de corrida decidiu dar música, deu uma clara ideia de submissão a um artista que até ali pouco tinha conseguido. Luque, com toda a correcção, pediu que parassem. E fez bem. Porque “coração independente” também pode ser isto: saber não aceitar o ruído quando o ruído não ajuda. Logo depois veio a melhor série da tarde para o diestro. E, quando o toiro já parecia querer menos, Luque quis mais. Esforçou-se, procurou, insistiu e acabou por arrancar ao animal aquilo que este não tinha oferecido até então. Foi aí que esteve o mérito. Não na primeira faena, que teve mais momentos de soundbite, mas nesta segunda, onde havia muito menos a ganhar e muito mais a fazer. E por isso ovação de pé. Por isso, também lhe tiro o chapéu.
Há dias em que o caminho é fácil. Há outros em que é preciso abrir caminho à força. E os forcados sabem disso melhor do que ninguém.
Pelos Amadores de Montemor, Joel Santos teve logo de perceber que o caminho não seria direito. Citou e, perante a investida larga do toiro, teve de carregar nos médios. Na reunião, o animal derrotou por alto e o forcado acabou volteado por cima do dorso, caindo ainda de pé junto aos traseiros. Não desistiu. À segunda tentativa fechou-se com eficácia à córnea, suportou a força do toiro e encontrou no grupo a ajuda necessária para consumar. Talvez seja aqui que outro verso de Amália faça todo o sentido: “teimosamente sangrando”. Porque há uma parte da pega que é precisamente essa. A de continuar quando a primeira tentativa já mostrou que o toiro não está para facilitar. José Maria Cortes Pena Monteiro foi outra história. Um dos forcados mais destacados da formação montemorense, citou desde os tércios com a classe que lhe é reconhecida e, quando chegou à cara, fechou-se que nem uma lapa à barbela. Sem espaço para dúvidas. Sem veleidades. Uma boa consumação à primeira tentativa e mais uma prova de que, quando há serenidade, leitura e técnica, a coragem deixa de parecer uma coisa descontrolada e passa a ser exactamente aquilo que deve ser.
Do lado de Vila Franca de Xira, Rodrigo Camilo trouxe alegria ao cite. Já nos médios, chamou o toiro com som e personalidade e esperou. Foram precisos alguns segundos até o animal arrancar, mas quando veio, veio leal. Rodrigo carregou e fechou-se bem na córnea, sem que o toiro lhe infligisse qualquer derrote de maior. Pega consumada na primeira tentativa, sem necessidade de inventar o que estava bem feito.
E depois veio Miguel Faria. Citou com carisma, chamou o “toiro bonito” e levou consigo aquele sorriso que não perdeu nem quando a coisa começou a complicar-se. Fechou-se com qualidade, mas consentiu um derrote lateral que, embora sem grande intensidade, o acabou por tirar da cara. À segunda tentativa voltou a sair.
E voltou a tentar. À terceira, com ajudas mais carregadas, consumou-se a pega. Mas a história não acaba aí. Miguel Faria não deu a volta que lhe tinha sido concedida. Saltou a trincheira e em vez de procurar o abraço dos amigos, ficou a olhar para o toiro que, naquele dia, não conseguiu levar por diante como queria. E aqui, sinceramente, há coisas que valem mais do que uma volta à arena. Porque “se não sabes onde vais, por que teimas em correr?” Miguel sabe, pelo menos, que ainda tem caminho para fazer. E teve a coragem, que não é tão vulgar como devia ser, de parar, olhar e perceber isso. Não tentou transformar uma dificuldade numa vitória de plástico. Não procurou o aplauso fácil depois de uma pega que não correu como queria. Ficou ali, entre trincheiras, a olhar para o animal. É uma atitude estranha, num tempo em que quase toda a gente quer sair por cima de tudo. E talvez por isso seja de louvar. Olhar. Reflectir. Analisar. Voltar a tentar. Da próxima vez, talvez brilhe.
Porque esta é mesmo a estranha forma de vida de que Amália falava. Um coração que não se consegue mandar parar, mesmo quando ainda não sabe exatamente onde vai chegar. Uns encontram o caminho depressa. Outros precisam de mais tempo. Alguns descobrem-no numa tarde da Palha Blanco. Outros saem dali exactamente como entraram. Mas continuam a correr. E talvez seja essa a única coisa que todos têm em comum.
A corrida que contou com uma lotação de dois terços fortes foi dirigida pela delegada técnica tauromáquica Lara Gregório de Oliveira, assessorada pelo Dr. José Luís Cruz, sendo cornetim, Tomás Napita.

