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Montijo – Entre o último adeus e o primeiro passo

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By Redação on 25 de Julho, 2026 Crónicas, Destaques
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Há dias em que o mundo parece lembrar-nos, de forma particularmente dura, que todos os caminhos têm um fim.

Hoje, enquanto Luís Represas é sepultado, enquanto uma voz que acompanhou gerações se despede definitivamente deste mundo, muitos outros também partem. Uns conhecidos. Outros anónimos. Uns deixam canções, memórias e palavras. Outros deixam apenas o silêncio daqueles que os amaram. E há também quem, nestes dias, viva por dentro a dor silenciosa de perder alguém que lhe era tudo. À Solange, que recentemente se despediu do seu pai, fica um abraço especial, desses que não precisam de muitas palavras, porque há dores que só o tempo, a memória e o amor conseguem lentamente aprender a carregar.
Mas todos desaparecem. Todos, um dia, deixam de estar. E talvez seja precisamente por isso que a vida se torna tão urgente. Porque enquanto uns são sepultados, outros continuam a partir. Não para a morte, mas para a vida.
A Procissão das Velas, realizada dentro da arena em memória de Dom Sebastião, momentos antes das cortesias, adquiriu esta noite um significado particularmente especial. Por momentos, na praça fez-se silêncio e luz, evocando a memória dos que partiram e que continuam presentes na lembrança dos seus.

E há qualquer coisa de profundamente simbólico nesta coincidência. No mesmo dia em que tantos homens e mulheres foram devolvidos à terra, Simão Rouxinol entrou numa praça para procurar o seu lugar no mundo. Talvez seja esta a grande contradição da vida. Enquanto uns partem definitivamente, outros começam. Enquanto uma voz se cala, outra procura ainda encontrar a sua. Enquanto Luís Represas é despedido por aqueles que ficaram, Simão preparou-se para enfrentar o futuro.

E talvez seja impossível não pensar em “125 Azul”. “Foi sem mais nem menos/ Que me deu para arrancar sem destino nenhum.” Há decisões que mudam uma vida. Às vezes, não são anunciadas. Não têm cerimónia. Não pedem licença. Um dia, simplesmente, arranca-se.

O Simão conheceu o futebol. Viveu o sonho de tantos jovens. Correu atrás de uma bola e poderia ter continuado a perseguir o caminho que tantos procuram. Mas a vida levou-o para outra estrada. E ele teve a coragem de a seguir. Trocou o relvado pela arena. A bola pelo cavalo. O jogo pelo toiro. E encontrou no toureio a cavalo a sua própria forma de competir, de lutar e de se afirmar. “Viva o espaço/ Que me fica pela frente e não me deixa recuar.” Hoje, esse espaço está diante dele. É a Praça de Touros Amadeu Augusto dos Santos. É o Montijo. É a sua gente. É a sua primeira apresentação diante daqueles que o viram crescer. E não há arena mais exigente do que aquela onde somos conhecidos. Porque, quando se entra numa praça longe de casa, pode-se ser apenas um nome num cartel.

Hoje, o Simão será muito mais do que isso. Será o jovem da terra. O rapaz que um dia jogou futebol pelos relvados da zona. O filho de uma família ligada à tauromaquia. O menino que escolheu um caminho diferente. E que hoje, pela primeira vez, terá de o afirmar diante dos seus.

O cartel era diversificado. Anunciavam-se o seu pai Luís Rouxinol, referência incontornável para o jovem que hoje se apresenta, bem como Filipe Gonçalves, o seu irmão Luís Rouxinol Jr., António Telles Filho, Tristão Ribeiro Telles e o praticante Vasco Veiga. As pegas da noite estiveram a cargo dos forcados amadores de Montijo e de Alcochete, tendo por diante seis toiros da ganadaria Fontembro, com uma média de 605 kg e um novilho de Varela Crujo.

A primeira lide da corrida esteve a cargo do, hoje director de lide, Luís Rouxinol. Teve por diante um exemplar flavo de capa que, sem ser um toiro de bandeira, acabou por se deixar, exibindo mobilidade e teclas por onde se tocar. Hoje com funções de artista e de pai, teve a capacidade de se focar, deixando dois curtos de qualidade, no caso, o segundo e terceiro da série, que resultaram cingidos. Estando a jogar em casa, notou-se que tinha o público consigo, o que naturalmente o motivou. Na sua praça, o espaço à frente estava preenchido por uma responsabilidade acrescida, mas a experiência permitiu-lhe avançar sem recuar. Fechou a sua actuação com um ferro de palmo, à meia-volta, em terrenos de dentro.

Filipe Gonçalves enfrentou-se com um toiro que desde cedo evidenciou adiantar-se às suas montadas, o que lhe dificultaria o labor. À sua frente estava um oponente que obrigava a uma leitura permanente das distâncias e dos tempos da sorte. Com o avançar do tempo de lide, ficou mais refinado, reduzindo a sua capacidade de locomoção, apertando apenas após o momento da sorte. A primeira bandarilha da série, deixada após cite de praça a praça, foi de valor. Na terceira tentou bater ao pitón contrário, o que ocorreu demasiado cedo, levando a que a sorte resultasse passada. Terminou a sua passagem pela arena, adornando-se no cite, numa sorte que apenas ficou à segunda tentativa.

Rouxinol Jr. teve a incumbência de dar lide ao terceiro da ordem. Mostrou-se com ganas, mas nem sempre conseguiu colocar em prática o seu conceito artístico. O primeiro curto da série resultou de boa nota, após desenho da sorte com as medidas correctas, o que não veio a suceder nos seguintes. Houve vontade de avançar, mas o caminho foi-se tornando cada vez mais difícil à medida que o toiro perdia resposta. A actuação acabou por vir a menos, ajudando a apatia do animal, que se parou, não reagindo sequer ao momento da cravagem.

António Telles Filho lidou o mais pesado do festejo, com mais de 650 kg, factor que nada contribuiu para que a mobilidade fosse demonstrada. Após deixar três compridos, onde a velocidade imposta foi excessiva, iniciou a série de curtos com uma bandarilha de qualidade, deixada ao estribo nos médios do tauródromo. A sua actuação, que decorreu dentro do estilo clássico, acabou por vir a menos dada a progressiva inércia do animal que se foi evidenciando. Por vezes, por mais que o cavaleiro procure espaço para continuar, o oponente deixa de oferecer caminho. Duas passagens em falso antecederam a terceira bandarilha da série, fechando com uma última bandarilha já sem relevo artístico, dada a imobilidade da rês.

Tristão Ribeiro Telles recebeu o toiro que sorteara com um comprido deixado em sorte de gaiola, após uma saída a alta velocidade e que, por esse motivo, resultou de belo efeito. Após um percalço que quase levou o toiro a sair pelo pátio de quadrilhas aquando da troca de montada, Tristão surgiu com ganas, ladeando com qualidade e aproveitando uma intempestiva investida do toiro, que o perseguiu pelo perímetro do redondel. A fase de curtos, embora ritmada e com bastante personalidade por parte do ginete, em determinados momentos pecou na reunião, dada a falta de acoplamento entre o binómio cavalo-toiro aquando da cravagem. Ainda assim, tem mérito em tentar fazer bem feito, preparando as sortes, com a brega possível face ao pouco conteúdo do oponente que enfrentou. Terminou a sua actuação com uma curta com cite de praça a praça, o melhor momento da série, seguido de outro ferro de menor relevância. Uma actuação com vontade, identidade e procura, perante um toiro que pouco mais permitiu.

O cavaleiro praticante Vasco Veiga iniciou funções, sendo infeliz na colocação dos dois primeiros compridos, que resultaram bastante desajustados. O exemplar da ganadaria titular foi reservado, o que não permitiu grandes alardes ao jovem toureiro. O primeiro curto foi o momento de maior relevo da sua passagem pela monumental, seguindo-se um ferro onde consentiu um toque aquando da cravagem. Com o toiro cada vez mais a refugiar-se junto a tábuas, apostou em sortes a sesgo, destacando-se como bastante positiva a primeira das referidas, onde o ajuste foi efectivo. Nem sempre a estrada que se abre diante de um cavaleiro é larga ou generosa. Às vezes, é preciso procurar o espaço possível.

Simão Rouxinol foi buscar o colaborador novilho da ganadaria alentejana à porta dos curros, o que, por si só, demonstrava a vontade com que aparecia. Não havia ainda destino conhecido, nem respostas para todas as perguntas. Havia apenas um jovem cavaleiro, um cavalo e um espaço inteiro pela frente. A sua fase de compridos, que poderia ser encarada como uma primeira abordagem, não o foi, logrando a cravagem de dois compridos à tira, de colocação irrepreensível. Se esperávamos que tudo fosse perfeito? Nunca seria. Mas vislumbram-se noções de toureio e qualidades indiscutíveis, assim não se deslumbre. É necessária uma forte equipa por trás para que a evolução seja natural, sem forcings que podem levar a uma queda abrupta. A segunda curta da série foi de boa nota, elevando logo de seguida o nível com uma curta à meia-volta em terrenos de compromisso, deixada de alto a baixo como ditam as regras. Terminou com o novilho já fechado em tábuas e, quando seria fácil solicitar apoio da quadrilha para o colocar nos médios, como muitos profissionais vemos fazer, eis que deixa uma sorte sesgada de grande nível. Ali, quando o espaço parecia já reduzido ao mínimo, encontrou ainda uma solução. Pelo meio, uma passagem em falso e uma reunião menos cingida, mas nada que nesta fase da carreira seja significativo. Boa imagem, boa actuação, deixa vontade de o voltar a rever.

No que respeita à forcadagem iniciar pelos Amadores do Montijo. Manuel Marques consentiu um momento de reunião duro, viajando sempre por baixo, o que levou a que, no equador da viagem, houvesse lugar a uma voltareta, sem que o forcado saísse da cara. As ajudas não conseguiram ajudar de imediato, o que levou a que, a certo momento, se pensasse que o forcado acabaria por sair. Assim não aconteceu, consumando-se a sorte ao primeiro intento. Rúben Durães teve uma viagem longa na cara do animal, após um duro momento de reunião. Aguentou uma barbaridade, mas não teve a devida ajuda para ser possível a consumação. Por não estar em condições de voltar a citar o toiro, deu a cara o cabo, Ricardo Parracho. Foi mais uma, muito violenta, viagem, deixando vários elementos visivelmente magoados, dois deles retirados de maca do ruedo. A efectivação ocorreu ao segundo efetivo intento. João Rebelo foi o forcado indicado para pegar o novilho, sendo, neste caso, a formação constituída por elementos dos dois grupos presentes. Na tentativa inicial foi incapaz de reunir, não possibilitando qualquer intervenção dos elementos que o acompanhavam. Efetivou na segunda tentativa, mesmo após uma reunião pouco ortodoxa onde não fletiu as pernas o suficiente. Terminou a actuação do grupo o forcado Rúben Cardoso, que o citou por quatro ocasiões, após diversas mudanças de terrenos, para lhe conseguir sacar uma investida. Conseguiu concretizar uma enorme pega de caras ao primeiro intento, após uma viagem longa onde a resiliência, a superação, a força física e de espírito foram fulcrais para ali se aguentar, praticamente sozinho.

Pelos Amadores de Alcochete, Miguel Cruz esteve valente. Citou com a calma de um experiente na função, mas teve pela frente um astado que lhe meteu a cara para derrotar, lateralmente e com intensidade, o que o deixou cair por terra logo de seguida. Na segunda tentativa, o forcado reuniu com qualidade, teve uma primeira ajuda gigante, mas a restante formação não conseguiu acompanhar, deixando o jovem sozinho à mercê dos duros derrotes da rês. À terceira, Miguel voltou a estar gigante, mas não teve o devido apoio dos seus persecutotes, acabando por efectivar, a sesgo, ao quarto intento, sem o brilhantismo que merecia. Miguel Pragana teve a inglória missão de pegar um astado que pouco se movimentou e que, dada a sua dimensão, quando arrancava se poderia metaforizar como um comboio de mercadorias de alta velocidade. Foi, literalmente, atropelado. A segunda vez que o citou, já ia em desequilíbrio evidente, tendo dificuldades em dar cada passo. É completamente desnecessário permitir que um qualquer ser humano debilitado se sujeite a isto. A saúde deverá ser colocada, sempre, primeiro que o orgulho e, é necessária uma liderança efectiva para impedir estas situações. A pega foi consumada numa emotiva cernelha na primeira entrada por Miguel Direito e pelo rabejador João Ferreira, que acabaram por dobrar o forcado anunciado. A última pega da noite foi consumada através de uma sorte de cernelha impactante pela dupla composta por Miguel Direito e Simão Martins, na primeira entrada, com o toiro a tentar sacudir de todas as formas possíveis e havendo uma capacidade enorme em ali se aguentarem.

A corrida foi dirigida pelo delegado técnico tauromáquico Tiago Tavares, perante uma lotação de cerca de 40% da capacidade máxima do tauródromo.

Há noites que não se medem apenas pelo resultado de uma lide, pela qualidade de um ferro ou pela intensidade de um aplauso.

No Montijo, diante da sua gente, Simão Rouxinol deu o primeiro passo de uma caminhada que ainda ninguém sabe onde o levará. E talvez essa seja a parte mais bonita de todos os caminhos verdadeiros: não conhecermos o destino, mas continuarmos a avançar. “Curiosamente, dou por mim pensando onde isto me ia levar.” O verso, cantado por Luís Represas, parece ganhar hoje uma outra dimensão. Porque também na tauromaquia há um momento em que se deixa de procurar respostas e se começa simplesmente a viver o caminho. O cavaleiro monta, a praça abre-se diante de si, o toiro surge e, por alguns minutos, tudo se resume à capacidade de responder ao instante. Depois, o tempo fará o seu trabalho. Virão outras praças, outros toiros, outras exigências. Virão noites felizes e outras mais difíceis. Virão aplausos, silêncio, aprendizagem e a inevitável necessidade de continuar a crescer. “Há-de haver uma hora p’ra vontade de parar”. E enquanto essa hora para o seu pai já está definida, para o Simão, está ainda longe. À sua frente há demasiado espaço, demasiados desafios e demasiada vontade para que esta noite possa ser vista como um ponto de chegada. Hoje foi uma apresentação. Foi o encontro entre um jovem e a praça da sua terra.
Mas, acima de tudo, foi o início de uma resposta que só o tempo poderá completar. E talvez um dia, quando olhar para trás e recordar esta noite, consiga perceber onde tudo isto o levou. Talvez então compreenda o significado daquele primeiro momento em que entrou na arena da sua terra, diante dos seus, com o futuro inteiro ainda por descobrir. Até lá, resta-lhe continuar. Sentir o ar na cara. Aceitar os desafios. Deixar que o caminho se faça. Porque, depois de uma noite como esta, já não se trata apenas de saber para onde se vai. Trata-se de ter coragem para continuar a ir. E talvez, um dia, no meio de tudo aquilo que ainda está por viver, se encontre finalmente.

Assim, talvez se encontre!

Texto e Foto: Rodrigo Viana

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