Há chocolates que são como o algodão, não engana e há o Kinder Surpresa, onde nunca sabemos muito bem o que nos vai sair de dentro daquele ovo de chocolate saboroso que os miúdos tanto apreciam. Nas Caldas da Rainha, este 15 de Agosto tivemos uma corrida envolta em mistério. Só que, em vez de chocolate, havia toiros, e em vez de ser Páscoa, estávamos na corrida centenária que há mais anos se realiza de forma ininterrupta nesta data.
O cartaz, esse, também tinha a sua dose de enigma. Anunciavam-se quatro toiros de Passanha e dois de Paulo Caetano, mas os dois últimos acabariam substituídos por dois de David Ribeiro Telles, por alegados problemas no campo. E se seis toiros para três cavaleiros e um matador já obrigam a fazer umas contas, perceber que Francisco Palha lidaria dois enquanto António Ribeiro Telles e Vasco Veiga ficariam com um cada também não era propriamente evidente para quem olhasse para o cartaz.
Nada que o aficionado não descubra, dirão alguns. Pois, mas um cartaz de uma corrida de toiros não devia ser um Kinder Surpresa, ainda para mais neste mês em que a probabilidade de derreter é mais que muita.
Mas se a embalagem prometia surpresas, a verdadeira resposta estava, como sempre, dentro da arena. E esta tarde tinha ainda um ingrediente especial: Tomás Bastos, recém-alternativado em Santander, apresentava-se pela primeira vez em Portugal como matador de toiros. Era, por isso, uma tarde para ir abrindo o calendário do advento e ir vendo a sorte que nos trazia.
A primeira janela abriu-se para António Ribeiro Telles e para um toiro volumoso, de apresentação irrepreensível, mas que desde cedo mostrou sinais de mansidão. Desde os compridos que se percebeu que a mobilidade não seria o seu forte, chegando ao momento do ferro sem grande reação e ficando praticamente estático depois da cravagem.
O cavaleiro da Torrinha teve, ainda assim, o mérito de não procurar inventar aquilo que o toiro não tinha. Desenhou bem as sortes e deixou uma série de curtos ao estribo, procurando o cingimento nas reuniões e cumprindo tecnicamente do início ao fim. Tudo pareceu bem feito, numa actuação em que esteve claramente por cima do oponente.
Faltou apenas o outro lado da equação. Com maior transmissão por parte do astado, estaríamos provavelmente a falar de uma lide de muito maior destaque. Assim, ficou uma actuação competente, de quem só pode ficar satisfeito com a forma como resolveu um toiro que pouco se quis dar.
A primeira janela trazia, portanto, um Ferrero Rocher: boa apresentação, cuidado na execução, mas com pouco recheio do lado do toiro, a não ser uma dura avelã.
Francisco Palha abriu a segunda e a quarta janelas da tarde. A segunda janela trouxe ao cavaleiro um chocolate com mais cacau, daqueles que não precisam de grandes adornos para marcar presença. O primeiro dos oponentes que sorteou embora pesado, era mais desproporcionado de estrutura e evidenciou também alguns sinais de mansidão, ainda que sem a imobilidade do seu antecessor.
Encontrou cedo um bom caminho. O primeiro curto da série foi de excelente nota, colocando o animal por baixo do braço, junto ao estribo, para cravar com convicção. Houve alguma reação da rês, que o perseguiu, permitindo ao cavaleiro mostrar pormenores de brega interessantes.
O toiro, porém, foi perdendo fulgor com a permanência em praça, sobretudo no que dizia respeito à transmissão na reunião. E quando o oponente deixa de transmitir, há uma parte da lide que inevitavelmente não chega às bancadas. Tecnicamente, Francisco continuava bem, mas o som ia diminuindo. Passou em falso antes da quarta da série, dada a ausência de reação do toiro, corrigindo logo de seguida. Fechou com um ferro à sua imagem, de raça, entrando pelos terrenos do oponente e deixando com qualidade a última bandarilha da sua atuação. O público, que preenchia cerca de 95% da lotação do tauródromo Caldense, reconheceu-lhe o mérito com uma ovação.
Mais tarde, no quarto da ordem, voltou a aparecer perante um toiro que parecia insonso de saída, sem transmissão e incapaz de chegar às bancadas. Francisco quis impor-lhe ferros curtos com batida ao pitón contrário, conseguindo duas investidas. A primeira terminou com uma passagem em falso, mas à segunda encontrou o momento exacto, depois de bater ao pitón contrário, para deixar um grande ferro. Na segunda da série teve de carregar mais a sorte, face à maior espera da rês, não conseguindo o mesmo acoplamento do anterior. Voltou a corrigir o momento da reunião na terceira da série e mantinha, até aí, uma tarde de sucesso nesta passagem pela arena das Caldas.
Mas há um velho problema dos toureiros: quando as coisas estão a correr bem, há sempre a tentação de querer mais. E esse querer mais deu em azar. Sofreu um toque e não conseguiu deixar a bandarilha, que ficou na arena. Ainda assim, ficou uma tarde de raça e competência, com alguns dos melhores momentos técnicos da componente equestre. O toiro veio em crescendo, merecendo volta de agradecimentos para o seu criador. Poderemos associar a um chocolate negro, talvez: sem necessidade de açúcar, com carácter e algum travo amargo no final.
A terceira janela era, por muitos, a mais aguardada e trouxe Tomás Bastos à arena das Caldas. O toiro, da casa Ribeiro Telles, saiu cornicurto e demasiado afeitado, algo que retira seriedade à atuação e que não deveria passar sem reparo. Bem sabemos que em Portugal não se picam os toiros, mas isso não deve significar aceitar na arena uma apresentação que minimize aquilo que poderá ser uma faena.
Tomás esteve diversificado de capote, agradando ao público, deixando depois o tércio de bandarilhas a cargo da sua quadrilha.
Na muleta encontrou um toiro que pouco facilitou. Investidas soltas, pouco recorrido e pouca transmissão obrigaram o jovem matador a colocar aquilo que não havia. Por naturais, pouco ou nada conseguiu sacar. Pela direita, o melhor surgiu numa série de cinco passes, rematada com um passe de peito. De resto, toureio de proximidade, muito ligado, mas com pouco sumo. Não houve concessão de música por parte da direcção de corrida.
A estreia como matador, em arenas nacionais, acabou por se tornar num pesadelo. O matador vilafranquense iniciou a ultima faena da tarde com uma larga afarolada de joelhos em terra, seguida de uma série de verónicas. Com a muleta voltou a começar de joelhos, aproveitando o facto de o toiro humilhar e apresentar melhores condições de lide do que o primeiro do seu lote. A primeira série por derechazos teve qualidade. Na segunda, ao perder a muleta, perdeu também o fio condutor. Na terceira e quarta séries vieram as colhidas, a primeira das quais resultou numa voltareta com uma queda feia, deixando certamente mazelas pela forma como se levantou do ruedo. Tomás voltou à cara do toiro e fechou com uma série de manoletinas antes de simular a estocada, cuja bandarilha nem sequer ficou na rês.
Uma tarde difícil para o jovem matador, que não teve nos toiros os aliados de que precisava e que acabou por ter de colocar muitas vezes aquilo que não vinha do outro lado. O calendário do advento, desta vez, trouxe-lhe pouco chocolate e mais ossos duros de roer.
Mas também é assim que se começa a perceber a profissão. A alternativa dá o estatuto, tardes como esta ajudam a construir uma carreira.
Vasco Veiga abriu a quinta janela da tarde. O praticante teve uma fase de compridos algo atribulada, com trocas de montadas pelo meio, mas teve o mérito de manter a sua linha condutora. Deixou um bom primeiro curto, nos médios da arena. No segundo abriu demasiado e acabou por deixar o ferro já demasiado esticado sobre o toiro. O restante da actuação manteve um nível razoável, vindo a mais no último ferro, momento em que voltou a deixar uma bandarilha de boa nota. Não foi uma actuação de grandes picos, mas foi crescendo e terminou melhor do que começou. Uma tablete que se vai comendo e que acaba por saber melhor no último quadrado.
E se os cavaleiros tiveram de abrir as suas próprias janelas, os forcados trataram de mostrar que há chocolates que não precisam de açúcar para terem valor e que há outros que lhes podem quebrar a dentição.
Pelos Amadores de Santarém, Pedro Graciosa teve a calma e a capacidade de fazer o toiro investir no seu tempo, reunindo com qualidade. Ainda suportou dois derrotes laterais, mas ao chegar ao grupo houve um de maior intensidade para a esquerda. Houve azar, já que uma das ajudas acabou por retirá-lo da cara, motivo pelo qual, e bem, o grupo decidiu repetir a sorte.
Na segunda tentativa, o momento da reunião não foi eficiente e a pega foi desfeita logo na primeira mangada. À terceira tentativa resolveu com eficácia, contando com uma competente ajuda do grupo perante um toiro que nunca mostrou verdadeira vontade de fazer mal.
Depois apareceu Salvador Ribeiro de Almeida.
E cada passo que deu na arena pareceu escrever a introdução de um sucesso que haveria de acontecer logo de seguida. Carregou por duas vezes, fechou-se que nem uma lapa e esteve muito competente, com a restante formação a fechar uma brilhante pega à primeira tentativa.
Pelos Amadores das Caldas da Rainha, Duarte Manoel, cabo da formação, esteve calmo e bem posto desde o brinde até ao momento de reunir, conseguindo fazê-lo com eficácia à córnea.
Houve uma primeira ajuda de muito valor, mas ao sentir a entrada do grupo a rês tirou a cara e não houve o discernimento necessário para fechar a tentativa inicial. Na segunda, o toiro quis bater na reunião e não foi pelo caminho do forcado, desfeitando um derrote duro que o deixou logo na arena. Na terceira, a pancada seca voltou a acontecer na reunião, deixando o forcado com mazelas na zona das costelas. Ainda assim, teve a capacidade de ir a uma quarta tentativa, já com as ajudas carregadas, onde logrou a consumação.
A última pega da tarde estava reservada para Salvador Serrano. E que pega! Esteve enorme na capacidade de nunca se largar, depois de uma reunião de dificuldade acima da média, havendo coesão da formação nesta concretização ao primeiro intento. A praça levantou-se toda numa ovação como esta tarde ainda não se tinha visto. Houve um forte pedido de segunda volta ao ruedo, com o forcado a decidir saudar sozinho nos médios.
No fim de contas, o nosso calendário do advento acabou por trazer um pouco de tudo.
Mas há sobretudo uma certeza que não precisa de embalagem: quando o chocolate derrete, quando o toiro não transmite ou quando a sorte se vira contra quem está na arena, é a verdade de cada um que fica. E essa, felizmente, não vem embrulhada.
A corrida foi dirigida por Ana Pimenta, assessorada pelo Dr. José Luís Cruz e pelo cornetim José Henriques.
Foto e Texto: Rodrigo Viana

