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De Galhofas para Carvão, uma nova era em Alter do Chão

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By Redação on 23 de Agosto, 2026 Crónicas, Destaques
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No Alentejo, onde tantas localidades encontram na tauromaquia uma das suas mais fortes expressões de identidade, são vários os grupos de forcados que assumem a responsabilidade de levar o nome da sua terra a outras praças. Em cada atuação, mais do que enfrentar um touro, defendem uma bandeira que não se vê, mas que está sempre presente: a da sua terra. A força, a união e a coragem demonstradas na arena acabam, inevitavelmente, por ser também reflexo da força de quem representam. E talvez seja essa uma das maiores responsabilidades de um grupo de forcados: ser embaixador de uma terra sem precisar de dizer uma única palavra. Após uma fase de alguma instabilidade nesta formação, foi mais uma noite que marcou também uma nova etapa na história do grupo, com João Galhofas a entregar a chefia a Diogo Carvão, numa noite em que pegaram em solitário seis exemplares da ganadaria Lima Cabral.

A corrida abriu com um exemplar castanho, voluntarioso, embora algo distraído com o movimento que se fazia sentir nas trincheiras. Luís Rouxinol deixou três compridos que permitiram aferir distâncias e perceber o comportamento da rês, antes de iniciar uma série de curtos onde se destacou logo no primeiro ferro, colocado na zona dos tércios, de boa nota e suficiente para que a música fosse chamada de forma algo prematura, atendendo ao pouco que ainda se tinha passado. O cavaleiro deu lide adequada a um toiro que, com o decorrer da atuação, se foi adiantando cada vez mais no momento da reunião, obrigando a uma atenção redobrada. Terminou com um ferro em terrenos de compromisso, já muito próximo das tábuas, passando por uma estreita nesga de terreno. Um toiro com transmissão e mobilidade, que acabou por levar emoção às bancadas.

O quarto da ordem, mais novo um ano relativamente ao primeiro, revelou menor dificuldade para o cavaleiro, apresentando menor ímpeto. A série de curtos começou com um ferro que ficou por deixar, depois de o toureiro bater cedo demais ao pitón contrário, corrigindo na tentativa seguinte. Também aqui a música poderia ter esperado por um momento de maior conteúdo. A lide foi crescendo entre momentos de menor acoplamento, numa fase em que o toiro foi aprendendo os terrenos e dificultando progressivamente a reunião, mas onde o ginete de Pegões também deixou apontamentos meritórios, sobretudo quando se dispôs a pisar terrenos de compromisso. A rematar, um ferro de palmo apenas conseguido após duas tentativas falhadas, sem que o cavaleiro encontrasse de imediato o momento ideal para a cravagem.

O segundo da ordem, negro bragado corrido de capa, saiu dos currais com muita pata e cedo mostrou uma tendência clara para se adiantar à montada no momento da reunião. Gilberto Filipe percebeu a condição do adversário e conduziu a lide com cautela, ainda que essa preocupação tenha levado a um início de curtos onde as distâncias não foram corretamente medidas, acabando por passar em falso, felizmente, já que o ferro teria sido de fraca nota. A atuação subiu depois de tom, com destaque para o segundo curto da série, conseguido precisamente quando o cavaleiro pediu à sua quadrilha para reduzir os toques de capote junto às trincheiras, numa decisão que ajudou a devolver protagonismo ao artista. O terceiro curto teve ainda maior impacto, perante um toiro que reuniu com a cabeça por alto e saiu de forma bastante brusca da reunião. A série terminou com um ferro em sorte de violino e um palmito, este apenas conseguido à terceira tentativa. Uma lide que decorreu com música desde o segundo curto.

O quinto da ordem foi, sem dúvida, a rolha da corrida. Castanho de capa, mostrou desde a saída uma apatia que não lhe permitiu ligar verdadeiramente ao seu lidador. Gilberto Filipe tentou de ambos os lados, procurou provocar a investida e fez o possível perante uma rês que pouco ou nada quis colaborar. Deixou a ferragem da praxe, mas sem conseguir construir uma atuação com verdadeiro conteúdo. A falta de transmissão do toiro acabou por condicionar por completo o labor do cavaleiro, que terminou sem música e sem volta à arena.

Miguel Moura teve diante de si o terceiro da ordem e abriu a atuação com um ferro em sorte de gaiola particularmente emotivo, já que o toiro o perseguiu com velocidade, proporcionando três voltas ao ruedo junto às tábuas e deixando desde logo ambiente para o que viria a seguir. A série de curtos começou com uma bandarilha de boa nota, justificando os acordes da banda, e o cavaleiro foi construindo uma lide de qualidade, recorrendo também aos seus reconhecidos dotes de brega. Com reuniões maioritariamente cingidas, foi dando forma a uma atuação onde conseguiu aproveitar as boas condições da rês. Terminou com um curto em terrenos de dentro e um palmito, ambos primorosamente rematados com ladeios cingidos, numa atuação que recolheu a maior ovação da noite até então. O toiro foi premiado com volta à arena para o seu criador acompanhado pelo maioral.

No sexto e último toiro da lide a cavalo, o exemplar saiu dos curros com veemência, provocando de imediato reação nos tendidos. Depois de aparentar um ligeiro problema de locomoção numa das mãos, já após os compridos, revelou-se extraordinariamente pronto na fase de curtos, adiantando-se de forma acentuada e surpreendendo o ginete de Monforte, que consentiu um toque. Destaque para a segunda bandarilha da série e para a brega cadenciada que conseguiu impor ao toiro. A atuação teve ainda momentos de risco e compromisso, terminando com um ferro de maior destaque em terrenos de dentro.

As reses de Lima Cabral, no geral, transmitiram emoção e deram bom jogo, com excepção do quinto da ordem. Houve mobilidade, prontidão e capacidade de proporcionar dificuldades suficientes aos artistas para que chegasse som às bancadas.

A primeira pega da noite esteve a cargo de David Amaral. Depois de ter citado a passo até aos médios, carregou a sorte e reuniu com eficácia, beneficiando de uma viagem limpa do toiro, concretizando na tentativa inicial.

Alexandre Lopes foi o homem eleito para a segunda pega da noite e diga-se citou com convicção. No momento de recuar, porém, escorregou precisamente quando se preparava para reunir, acabando atropelado pela rês. Voltou à cara na tentativa seguinte, mas não conseguiu fletir suficientemente as pernas para se fechar, acabando novamente na arena antes de se conseguir acoplar. À terceira o astado mostrou a dureza que já vinha evidenciando na lide, pôs a cara firme e o forcado não aguentou um derrote lateral e por alto, consumando a pega à quarta tentativa, com ajudas carregadas e a sesgo.

A terceira pega teve um significado especial. João Galhofas, que esta noite se despedia das arenas enquanto cabo dos Forcados Amadores de Alter do Chão, teve diante de si um toiro que o obrigou a avançar por três vezes até conseguir sacar a investida. A reunião não foi perfeita, ficando o forcado algo de lado e impedindo-o de se fechar como pretendia. À segunda tentativa, contudo, conseguiu consumar depois de uma viagem em que o toiro acabaria por tropeçar, com Galhofas firme na cara e a restante formação a acompanhar sem dar veleidades. Uma pega que encerrou, dentro da arena, um capítulo importante da sua história enquanto cabo.

Diogo Carvão, novo cabo da formação, avançou para a quarta da noite, brindando de forma sentida a João Galhofas antes de se colocar diante do toiro. E teve uma estreia à altura da responsabilidade. Reuniu com enorme força e raça, fechou-se muito bem e aguentou uma viagem longa, com o toiro a fugir ao grupo. Uma primeira pega como cabo que mostrou personalidade, decisão e, sobretudo, a vontade de assumir desde logo o lugar que passa agora a ocupar na história dos Amadores de Alter do Chão.

Rafael Carvão, irmão do novo cabo, foi o quinto homem a ir à cara e brindou à Banda Municipal Alterense, que este ano assinala o seu centenário. Conseguiu uma viagem limpa, com o toiro a seguir o seu caminho, tendo o forcado o mérito de se fechar com convicção à córnea. Apesar de alguma menor capacidade dos elementos que o acompanhavam em fechar, a pega foi consumada à primeira tentativa.

A última da noite coube a Rui Silva, diante de um toiro sempre pronto a arrancar. Teria sido importante ganhar mais terreno até aos médios antes de iniciar o cite, mas a opção de reunir praticamente no tércio, já junto às tábuas, acabou por condicionar a execução. Rui Silva não conseguiu fechar-se como pretendia e a formação também não encontrou forma de o ajudar a consumar. O forcado saiu lesionado, sendo dobrado à segunda tentativa por Ventura Mendes, que concretizou a pega.

Antes das cortesias, a Banda Municipal Alterense protagonizou ainda um momento de particular significado, oferecendo ao cabo da formação a partitura do pasodoble “Grupo de Forcados Amadores de Alter do Chão”, numa homenagem que se enquadrou numa noite especial.

A corrida foi dirigida pelo delegado técnico tauromáquico Marco Gomes, assessorado pelo Dr. Gonçalo Louro e pelo cornetim Tomás Napita, sendo que o tauródromo contou com uma presença de público de três quartos fortes de lotação. Uma moldura humana condizente com uma noite que, para além do espetáculo, ficará sobretudo marcada por aquilo que representou para o grupo de forcados local.

Fotos e Texto: Rodrigo Viana

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