Por: Rodrigo Viana
Há corridas em que a dificuldade não está apenas nos toiros ou na capacidade de os lidar. Está também em dirigir. A terceira do abono, no Campo Pequeno, foi uma delas.
Lidaram-se sete toiros da ganadaria do Dr. António Silva, num curro marcado pela mansidão. Alguns ainda tiveram sinais de casta, outros perderam-se completamente. Aos toureiros cabia encontrar argumentos e, na maioria dos casos, não os encontraram. Quem conseguiu resolver a papeleta, teve mérito. Mas não houve matéria para grandes destaques artísticos.
Houve, contudo, um nome que merece ser destacado: Tiago Tavares, delegado técnico tauromáquico.
E merece-o porque, numa corrida destas, teve critério. Não quero ser injusto: a música a Filipe Gonçalves deveria ter surgido ao terceiro curto. Seria, certamente, mais defensável. E, se não desse música no segundo curto a Vasco Veiga, provavelmente já não daria em momento algum da lide. Também é verdade. Mas é precisamente aqui que está o mérito. Estamos a discutir o detalhe. E numa corrida tão difícil de dirigir, isso é uma coisa boa.
A função de um delegado técnico tauromáquico não é agradar à bancada, muito menos aos artistas. É dirigir e fiscalizar o espetáculo dentro das competências que o regulamento lhe atribui, com conhecimento técnico, autoridade e capacidade de decisão. O problema é que, infelizmente, isto está longe de ser regra. O que é verdadeiramente preocupante é a falta de critério de grande parte das pessoas que desempenham esta função. São pessoas que não se conseguem impor, que não assumem a liderança das corridas e que acabam, demasiadas vezes, “comidas de cebolada” por apoderados, artistas e até pelo público.
E aqui há um fenómeno que todos conhecemos.
Dez amigos de um toureiro, bem distribuídos pela bancada, conseguem fazer um barulho que parece uma manifestação de milhares. Gritam música. Insistem. Voltam a gritar. E, se a direção não tiver personalidade, a música acaba por aparecer. Isso jamais pode ser critério. Uma direção de corrida tem de ter autoridade suficiente para ouvir o público sem ser comandada por ele. Tem de saber ouvir os artistas e os seus apoderados sem se deixar pressionar por eles. E tem, sobretudo, de ter conhecimento e personalidade para decidir.
Porque dirigir é decidir. E decidir implica, muitas vezes, dizer não. Tenho criticado muitas vezes a facilidade com que se distribui música e voltas. Ao segundo curto. Às vezes ao primeiro. A uma atuação que simplesmente cumpriu. Como se a banda tivesse de tocar porque está contratada e como se qualquer momento razoável de um toureiro tivesse de ser imediatamente premiado. Não!
A música é um prémio. Não é uma constante.
E uma empresa que contrata duas bandas de música não pode criar a expectativa de que elas têm de tocar só porque foram contratadas. As bandas estão ali para tocar quando a corrida o justificar. Se não houver motivo, não há música. E não há problema nenhum nisso. Aliás, há aqui uma questão que muitas vezes esquecemos: a atribuição de música e de voltas é também uma ferramenta para alimentar a competitividade da corrida.
Se sabemos antecipadamente que qualquer atuação razoável terá música e que qualquer faena terá uma volta, independentemente do que aconteceu na arena, retiramos valor a esses prémios. E, pior do que isso, retiramos tensão à própria corrida. A competição vive também da possibilidade de conquistar aquilo que não está garantido. O toureiro tem de saber que uma volta não é automática. Que a música não está assegurada. Que é preciso fazer mais, convencer mais, superar o que já foi feito. É essa possibilidade que mantém a fasquia elevada e dá significado ao prémio quando ele finalmente surge. Se tudo parece garantido, previsível e monótono, a festa perde importância e interesse. E se tudo merece música, nada merece música.
Tiago Tavares esteve à altura de uma responsabilidade que nem sempre vemos ser assumida. Não acertou necessariamente, para todos os pontos de vista, em todas as decisões e é natural que assim seja, porque estamos a falar de critérios discutíveis e não de uma ciência exata. Mas, acima de tudo, não se deixou transformar num funcionário dos aplausos ou de boquinhas fáceis vindas da trincheira. E isso, numa corrida difícil, merece ser reconhecido.
Porque o problema da nossa tauromaquia não é haver quem decida mal. É haver demasiados responsáveis que parecem ter medo de decidir. Na sexta-feira houve liderança. E, numa praça como o Campo Pequeno, isso vale muito.
Chapeau, Tiago!
