Há mais de uma década que escrevo sobre toiros. Digo-o sem qualquer vaidade. Digo-o quase como quem confessa uma condenação.
Porque ser crítico tauromáquico, ou cronista, como alguns preferirão chamar-lhe é uma posição difícil. E tornou-se ainda mais difícil à medida que fui aprendendo aquilo que, no princípio, ainda não sabia: que gostar muito da Festa pode tornar ainda mais doloroso dizer que uma lide ou pega não foi boa.
Eu primeiro aprendi a gostar de toiros. Foi assim que começou. Antes da caneta veio a paixão. Antes da análise veio o fascínio. Antes de procurar o defeito numa faena, fui daqueles que procuravam a beleza. E talvez seja precisamente por isso que, hoje, me custe tanto escrever aquilo que alguns não querem ler. É fácil escrever um triunfo quando tudo corre bem. Acreditem que é mesmo o mais fácil. Quando o toiro rompe, o toureiro o entende, a faena cresce, a música ajuda, o público se entrega e o ferro fica onde tem de ficar, o cronista quase não precisa de escrever. Basta acompanhar a festa.
Difícil é o contrário. Difícil é olhar para uma actuação de alguém por quem temos respeito, amizade ou admiração e dizer: hoje não esteve bem. Mais difícil ainda é fazê-lo quando a praça diz o contrário. E aqui começa o problema. Porque há uma confusão cada vez maior entre aquilo que aconteceu na arena e aquilo que se sentiu na bancada. São coisas diferentes. Uma praça pode vibrar perante uma lide que tecnicamente foi pobre. Pode existir uma ovação enorme depois de uma actuação apenas razoável. Pode haver duas voltas à arena quando, olhando friamente para aquilo que aconteceu, talvez nem uma fosse inteiramente justificável. O público tem esse direito. O público não tem de ser crítico. O público vai à praça para sentir. O cronista vai à praça para ver. E ver não é o mesmo que sentir. Walter Lippmann, em Public Opinion, escreveu em 1922 que notícia e verdade não são a mesma coisa e devem ser distinguidas. A frase não foi escrita para a tauromaquia, evidentemente, mas serve-nos perfeitamente: aquilo que se torna visível ou ruidoso não é necessariamente aquilo que melhor traduz a realidade. Na arena, isto é particularmente evidente. O aplauso é um facto. Mas não é uma avaliação técnica. A emoção é um facto. Mas não é necessariamente um critério artístico. E uma ovação, por muito bonita que seja, não transforma automaticamente uma má colocação num bom posicionamento, uma série de passes vulgares numa grande faena, uma execução deficiente numa grande sorte ou uma lide irregular numa actuação de triunfo. Se assim fosse, não precisaríamos de cronistas. Bastava contar o número de espetadores que batessem palmas.
Há outra coisa que por vezes esquecemos: o toureiro não controla tudo. E quem escreve sobre toiros deve saber isso melhor do que ninguém. Um toureiro pode treinar durante meses e chegar à praça preparado. Pode estar fisicamente extraordinário. Pode ter estudado o seu toiro. Pode querer triunfar mais do que todos nós. E, ainda assim, pode não triunfar. Porque existe o toiro. Existe o comportamento do animal. Existe o seu poder. Existe a sua duração. Existe a sorte. Existe a bandarilha. Existe o momento. Existe aquilo que simplesmente não depende do homem.
A vida de toureiro não é uma equação em que esforço mais talento resulta obrigatoriamente em triunfo. Seria demasiado simples. E a Festa nunca foi simples. Por isso, criticar uma lide não significa ignorar o trabalho que está por trás dela. Pelo contrário. Significa respeitá-lo ao ponto de o levar a sério. É precisamente porque sabemos quanto custa chegar ali que devemos ter coragem para dizer quando aquilo que ali vimos não correspondeu ao nível que esperávamos. O elogio permanente não é respeito. Às vezes é apenas comodidade. Pierre Bourdieu dedicou grande parte da sua obra a estudar o julgamento de gosto, mostrando que aquilo que consideramos bom, belo ou digno de distinção não existe num vazio social. O gosto também se aprende, constrói e afirma através de classificações. Na tauromaquia, isto deveria obrigar-nos a uma reflexão. Porque também nós temos os nossos gostos. Podemos ou não ter os nossos toureiros preferidos, as nossas ganadarias, as nossas escolas taurinas. E, sobretudo, temos as nossas relações. É aqui que o cronista tem de ter cuidado. Muito cuidado. Porque o artista pode ser nosso amigo.
Pode telefonar-nos. Pode cumprimentar-nos à porta da praça. Pode ser uma pessoa extraordinária. Pode ser um homem que admiramos profundamente. Pode até ser alguém que, fora da arena, mereça toda a nossa consideração. Mas nada disso coloca um passe a mais numa faena. E nada disso tira um passe a menos. A crítica não julga o carácter do toureiro. Não julga a amizade. Não julga a pessoa. Julga o trabalho. Tal como acontece noutras profissões. Eu próprio sou avaliado profissionalmente na minha vida fora das praças. E não me ocorre dizer que alguém não pode avaliar o meu trabalho porque conhece as horas que passei a prepará-lo, porque sabe que sou uma boa pessoa ou porque gosta de conversar comigo. O esforço merece respeito. O resultado merece análise. São coisas diferentes.
Há uma pergunta que às vezes me fazem, directa ou indirectamente: “Mas para quê escrever que não esteve bem?” Porque esteve mal. E essa é a resposta. Porque se deixarmos de o dizer, a crítica deixa de existir. E quando a crítica deixa de existir, sobra apenas propaganda. Não quero ser propaganda. Nunca quis. E não me interessa escrever que todos triunfaram. Aliás, há poucas coisas mais fáceis do que distribuir triunfos. Um triunfo não custa nada ao cronista. Escreve-se. Publica-se. Toda a gente fica contente. O toureiro fica contente. O apoderado fica contente. O empresário fica contente. O público fica contente. E o cronista ainda recebe elogios por ter sido “justo”.
Mas será justo? Ou será apenas conveniente?Porque há noites em que o triunfo é evidente. E há outras em que não é. E nesses dias é preciso coragem para escrever a palavra que ninguém quer ler: não! Não foi suficiente. Não esteve ao seu nível. Não houve faena para o triunfo. Houve vontade. Houve entrega. Houve momentos. Mas não houve o todo. E isso também faz parte da tauromaquia.
Há ainda uma realidade que não podemos ignorar. Os triunfos podem abrir portas. Podem ajudar a conseguir contratos. Podem alimentar uma temporada. Podem construir uma narrativa. E isso é compreensível. Cada profissional tenta defender a sua carreira. Cada toureiro procura aproveitar o momento. A vida custa a todos. Mas a crítica não pode transformar-se numa extensão do departamento de comunicação de ninguém. Se o triunfo é uma ferramenta de carreira, compreendo. Se o elogio é uma ferramenta de amizade, compreendo. Mas se estamos a falar de crítica taurina, há uma obrigação maior: sermos honestos com aquilo que vimos. Mesmo quando dói. Sobretudo quando dói.E há uma coisa que gostaria que todos os profissionais entendessem. O cronista não está contra vocês por vos criticar. Muitas vezes, critica-vos precisamente porque acredita que podem fazer melhor. Há uma diferença enorme entre destruir alguém e exigir-lhe mais.
Eu não tenho interesse nenhum em ver um toureiro fracassar. Nenhum. Quero ver grandes toureiros. Quero ver grandes toiros. Quero sair das praças com vontade de escrever até de madrugada porque aconteceu alguma coisa que mereceu ser contada. Quero ter dificuldades em escolher as palavras porque foram demasiadas as coisas boas que aconteceram. Mas quando não aconteceu, também quero poder dizê-lo.
Sem medo. Sem pedir desculpa.Sem olhar para a bancada para saber o que devo escrever. Sem estar a receber mensagens menos agradáveis só quando não ficam satisfeitos. Porque o cronista não pode escrever de costas para a arena. E talvez seja essa a maior responsabilidade de quem escreve sobre toiros. Não ser contra. Não ser a favor. Ser fiel. Fiel àquilo que viu. Fiel àquilo que sabe. Fiel à sua consciência.
O público pode aplaudir. O toureiro pode celebrar. O empresário pode fazer contas. O apoderado pode anunciar o triunfo. Tudo isso faz parte da Festa. Mas o cronista tem outra função. Parar. Olhar. Pensar. E escrever.
Mesmo quando a verdade da arena não coincide com a verdade da bancada. Mesmo quando o artista deita a cabeça na almofada e sabe, no silêncio do quarto, aquilo que nós também vimos. Que hoje podia ter sido melhor. E talvez seja essa a maior homenagem que se pode fazer a quem arrisca a vida diante de um toiro: não mentir sobre aquilo que fez. Porque elogiar tudo não é gostar da tauromaquia. É ter medo dela. E eu, depois de tantos anos, continuo a gostar demasiado dos toiros para ter medo de escrever aquilo que vejo.
Texto: Rodrigo Viana

