Há coisas na tauromaquia que discutimos muito e outras que, estranhamente, parecem já não merecer discussão nenhuma.
Falamos do toureiro, da faena, da concessão (ou não) de música, das voltas à arena, das orelhas, dos contratos, das praças cheias ou vazias. Falamos de tudo. Mas, por vezes, esquecemo-nos daquele que está na origem de tudo isto:
o toiro. E mais concretamente, daquele que passou anos a ser criado para um dia entrar numa arena.
Criar toiros de lide não é criar gado para amanhã vender. É criar um animal durante anos, alimentá-lo, tratá-lo, seleccioná-lo, esperar por ele e aceitar que, durante esse tempo, tudo pode acontecer. Pode lesionar-se, inutilizar-se, adoecer ou até mesmo, morrer. Pode chegar aos anos desejados e, por qualquer razão, deixar de ter condições para ser lidado. E durante esse tempo todo houve alimentação, terrenos, mão-de-obra, veterinários, deslocações, cercas, manutenção, seleção e, sobretudo, uma coisa que não aparece numa fatura: paixão.
Porque os números das corridas e das largadas, muitas vezes, não chegam para pagar tudo aquilo que está por trás de um toiro. É preciso gostar muito disto. Muito. E talvez seja por isso que tenho uma enorme admiração por quem continua a criar toiros de lide. Porque o ganadeiro trabalha com uma coisa que não controla completamente. Pode selecionar, tentar melhorar, estudar genealogias, escolher reprodutores. Pode procurar o toiro que imagina para a sua ganadaria, mas nunca tem a garantia do resultado. E ainda assim continua. Continua porque acredita, porque gosta, porque há qualquer coisa de inexplicável naquele momento em que um toiro sai dos curros, pisa a arena e, durante alguns minutos, justifica anos de trabalho.
Só que estamos a pedir cada vez mais aos ganadeiros. E, ao mesmo tempo, estamos a tirar-lhes espaço para serem ganadeiros. Porque também eles têm de ceder. Têm de ouvir os toureiros, os empresários, os mercados. Têm de perceber aquilo que vende. E aqui começa uma das maiores ameaças que, na minha opinião, pairam sobre a Festa. A procura de um determinado tipo de toiro. Um toiro mais cómodo, mais previsível, mais fácil. Um toiro que permita ao artista desenvolver aquilo que pretende sem lhe colocar demasiados problemas.
E todos sabemos que é aqui que entra, cada vez mais, o recurso ao Murube e a outros cruzamentos ou refrescamentos de sangue que procuram determinadas características que o mercado passou a exigir. Não estou a dizer que um encaste é melhor do que outro. Nem tenho essa pretensão. O problema é outro. O problema reside no facto da procura comercial começar a mandar mais do que a diversidade. Porque se todos queremos o mesmo tipo de toiro, acabamos por ter cada vez menos tipos de toiro.
E quando isso acontece, perdemos uma parte daquilo que tornou a tauromaquia aquilo que ela é: a diversidade, a incerteza, a emoção, o fator surpresa. Aquele momento em que ninguém sabe exactamente o que vai acontecer quando os currais se abrem.
Tenho cada vez mais dificuldade em perceber a ideia de que uma corrida deve ser construída para que o toureiro se sinta confortável. O toureiro tem de se sentir preparado. Tem de se sentir capaz. Tem de conhecer o seu ofício. Mas confortável? Talvez não. Porque se retirarmos ao toiro aquilo que o torna imprevisível, estamos também a retirar à Festa uma parte da sua verdade. E não confundamos bravura com comodidade. Não confundamos qualidade com facilidade. Um toiro pode ser bom e não ser fácil. Aliás, algumas das maiores emoções que já vivi numa praça nasceram precisamente porque o toiro não era fácil. Porque obrigou o toureiro a pensar, a corrigir, a mandar, a impor-se, a ficar zangado e encontrar soluções.
É aí que muitas vezes nasce a verdadeira tauromaquia. Não quando tudo está feito à medida. Mas quando há um problema e aparece um homem capaz de o resolver. Hoje, infelizmente, parece existir uma procura crescente pela chamada “tourinha”. Aquela que permite fazer, que permite ligar passes, que permite mostrar uma determinada técnica, ou adornar-se, que permite ao artista sentir que tem o animal onde quer. Mas depois acontece uma coisa curiosa. Sentamo-nos três horas numa bancada. Esperamos, aplaudimos (ou não), discutimos, pagamos. E no dia seguinte, quando alguém nos pergunta o que aconteceu, temos dificuldade em encontrar um momento que nos tenha ficado na memória. Um momento que nos tenha feito levantar, nos tenha feito gritar, nos tenha feito dizer: “Eu estava lá!”
E isso é muito grave. Porque uma corrida de toiros não pode ser apenas uma sucessão de momentos tecnicamente correctos. Tem de acontecer alguma coisa. Tem de haver emoção, risco, verdade. Tem de haver aquele instante em que o coração bate mais depressa porque sabemos que ali, naquele segundo, pode acontecer tudo, desde a glória à tragédia.
E é aqui que também temos de falar dos artistas.
Sem medo de o fazer. Porque há valores que estão a ser cobrados hoje que são absolutamente astronómicos quando comparados com aquilo que se oferece ao público. Há toureiros que recebem milhares para estar meia hora na arena. Meia hora. E não tenho qualquer problema em que um profissional seja bem pago. Se há alguém que merece ser remunerado pelo seu talento, pelo seu trabalho e pelo risco que corre, é o toureiro.
Mas há uma pergunta que temos de fazer:
que risco estamos realmente a pagar? Porque o risco do toureiro de hoje, em muitos casos, não é o mesmo de há décadas. Os toiros são diferentes. As escolhas são diferentes. As condições são diferentes. A preparação é diferente. A própria forma de tourear é diferente.
E não podemos fingir que não vemos aquilo que está diante dos nossos olhos. E não, não se trata de querer voltar atrás no tempo. Trata-se de não perdermos a essência pelo caminho. Porque se continuarmos a seleccionar o toiro para que seja cada vez mais cómodo para o artista, chegaremos a um ponto em que o próprio artista deixará de conseguir tirar proveito dessa comodidade. E já estamos, em algumas situações, a assistir a isso. Temos toiros que supostamente são escolhidos porque servem. Depois saem e nem servem. Nem ao toureiro, nem ao público, nem à Festa.
E o mais triste é que, no final, todos perdemos.
Perde o ganadeiro, que passou anos a criar.
Perde o toureiro, porque não encontra matéria para construir uma grande faena. Perde o empresário, porque o espetáculo não deixa marca. E perde sobretudo o público, aquele que pagou um bilhete e passou três horas sentado numa bancada à espera de sentir alguma coisa.
Não podemos querer salvar a tauromaquia retirando-lhe aquilo que a torna diferente. A tauromaquia não é apenas estética. Não é apenas técnica. Não é apenas música. Não é apenas um homem vestido de luces a desenhar passes diante de um animal.
É confronto, incerteza, criação, seleção, risco e emoção!
Se retirarmos uma destas peças, talvez ainda tenhamos uma corrida. Mas podemos deixar de ter aquilo que fez com que alguém se apaixonasse por ela. E eu continuo a acreditar que o futuro da Festa não está em criar uma tourinha cada vez mais perfeita. Está em criar um toiro que obrigue o homem a ser cada vez melhor. Porque é aí que está a diferença. Um grande toureiro diante de um toiro que não lhe oferece nada é apenas um homem a tentar resolver um problema. Um grande toureiro diante de um grande toiro é outra coisa.
É história. É memória. É aquele momento de que falamos vinte anos depois!
É por isso que os ganadeiros são tão importantes. E é por isso que temos de lhes dar espaço. Espaço para criar, para selecionar, para errar, para conservar encastes, para manter diversidade. Não podemos querer que todos criem o mesmo toiro, porque queremos todos contratar os mesmos artistas. A Festa precisa de variedade. Precisa de ganadarias diferentes.
Precisa de encastes diferentes. Precisa de comportamentos diferentes. Precisa de toiros que não saibamos exatamente como vão responder. Porque, no fundo, é isso que ainda nos faz levantar da cadeira. E há uma verdade que talvez doa a alguns. Não são apenas os ganadeiros que têm de mudar. Os artistas também terão de perceber que, se continuarmos a pedir o toiro à medida, podemos acabar a tourear diante de animais que já não despertam emoção em ninguém. E então teremos conseguido uma coisa extraordinária:
tornar confortável aquilo que nunca deveria ter deixado de ser perigoso.
Teremos corridas cada vez mais previsíveis, faenas mais parecidas, toiros mais semelhantes, menor diversidade, cada vez menos emoção e cada vez menos razões para alguém se levantar no dia seguinte e dizer:
“Ontem aconteceu algo de especial naquela praça.”. Na verdade quando vamos ver um artista a três corridas no mesmo mês ja sabemos exatamente as montadas que vão usar, que tipo de sorte executam com cada uma e como é que tudo se processa desde que entram até que saem. Só é diferente quando o toiro não deixa… ahhhhh é mesmo disso que precisamos! Não quero saber que vão tirar a cabeçada no último curto, não quero saber que vão pôr um violino, um palmo ou até um par. Pode não dar.
É isso que me preocupa. Não quero uma Festa mais fácil. Quero uma Festa mais verdadeira.
Quero que o ganadeiro possa continuar a criar o toiro em que acredita. Quero que o toureiro tenha de ser suficientemente bom para resolver aquilo que lhe calha. Quero que o empresário perceba que vender uma corrida não é apenas juntar seis nomes conhecidos a seis toiros supostamente cómodos. E quero que o público volte a sair da praça com histórias para contar.
Porque se depois de três horas sentados numa bancada ninguém conseguir lembrar-se de um momento que tenha feito o sangue ferver, então temos um problema. E esse problema não se resolve com mais uma orelha, nem com mais uma volta à arena, nem com mais um contrato.
Resolve-se olhando para dentro. E tendo coragem de admitir aquilo que talvez ninguém queira ouvir: se continuarmos a tirar emoção ao toiro para dar comodidade ao toureiro, um dia podemos descobrir que já não temos nem emoção nem toureiro para a criar. E nessa altura será tarde demais. A Festa não vai ao abismo por causa de uma corrida, de um ganadeiro, ou de um toureiro por mais influência que tenha. Vai ao abismo quando, pouco a pouco, todos aceitarmos como normal aquilo que antes nos faria levantar da bancada e perguntar: onde está o toiro? E essa é uma pergunta que ainda vamos a tempo de responder!
