No Cartaxo, a noite começou muito antes de se abrirem as portas dos curros. Começou à luz das velas.
Pela arena, dezenas de pequenas chamas avançaram em procissão, desenhando um rio de ouro na escuridão. A física explica que a luz, ao atravessar o fumo e a humidade da noite, se refrata e se dispersa, criando halos delicados em redor de cada chama. Mas há fenómenos que a ciência descreve e o coração interpreta de outra maneira.
Porque aquela não era apenas a luz das velas. Era a luz de uma tradição destas gentes, que permite que o andor de São João Baptista entre na arena transportado pelos forcados. Os mesmos homens que, pouco depois, medirão a sua coragem diante do toiro, carregam primeiro o símbolo da sua devoção.
Na física, a refração acontece quando a luz muda de direção ao entrar num novo meio. Foi isso que sucedeu nesta noite. As velas abandonaram a arena, mas a devoção transformou-se em emoção e, como na reflexão da luz, aquilo que partiu do areia regressou multiplicado no burburinho de um público que preenchia cerca de dois terços das bancadas. Depois, sob a grande lua que dominava o cartaz, foi tempo de descobrir de que forma aquela luz se haveria de dispersar.
Miguel Moura foi a primeira centelha da noite. Diante de um toiro, da ganadaria titular de José Luís Cochicho, de apresentação primorosa, mas brusco e impetuoso no momento da reunião, o cavaleiro de Monforte viu-se obrigado a alterar planos e trajetórias. Esteve certeiro nos tempos e nas distâncias, deixando ferros de boa nota, embora sem a colaboração necessária para fazer brilhar toda a sua brega. Terminou com um palmo de qualidade, deixando na arena a primeira chama de uma noite que ainda havia de ganhar intensidade.
No segundo do seu lote, um flavo de capa com as suas teclas, nem sempre o entendimento foi perfeito. Abriu demasiado quarteio na preparação de algumas sortes e a ferragem acabou por resultar algo dispar. Ainda assim, Miguel conseguiu deixar apontamentos do seu conceito artístico despedindo-se do Cartaxo com um palmito de qualidade, dentro do registo a que tem habituado a afición.
João Salgueiro da Costa encontrou pela frente um castanho de capa, perdido de manso, que procurou constantemente o refúgio das tábuas obrigando desde cedo a uma lide de persistência. O mérito esteve em conseguir colocar o toiro nos tércios e em aproveitar esse raro momento de entrega para cravar uma curta frontal de muito boa nota. A terceira curta, consumada junto às tábuas depois de algumas passagens em falso, valeu pela insistência e pela capacidade de encontrar algum brilho onde parecia não existir.
No quinto da noite, Salgueiro da Costa deixou um comprido à tira de excelente execução, mas a fase de curtos tornou-se intermitente. Houve momentos de grande nota, como a segunda curta da série e a última, deixada citando num palmo de terreno, mas também desacertos na abordagem e no momento da reunião. Como no efeito Doppler, em que a frequência de um som parece alterar-se consoante a aproximação ou o afastamento da sua fonte, também a emoção da lide oscilou, aproximando-se por momentos das bancadas para logo depois se afastar.
Luís Rouxinol Jr. protagonizou a atuação mais redonda da noite. O negro bragado corrido de capa revelou-se um manso encastado, exigindo estudo e entendimento. O cavaleiro percebeu-o nos compridos e, nos curtos, conseguiu retirar-lhe virtudes. Como acontece na difração da luz, quando um feixe encontra um obstáculo e procura novos caminhos, também Rouxinol Jr. foi encontrando diferentes soluções para fazer sobressair as virtudes que o toiro insistia em esconder. Destacou-se uma segunda bandarilha deixada em terrenos de compromisso, executada segundo os cânones, e sobretudo um ferro de excelência à meia-volta em terrenos de dentro, depois de uma passagem em falso que poderia ter quebrado a atuação. Pelo contrário, acabou por elevá-la. O palmito no centro da arena encerrou uma lide em crescendo e um dos momentos de maior expressão da corrida.
No último do seu lote, Rouxinol Jr. não começou da forma desejada, acusando algum desacerto nos compridos. Porém, as três últimas bandarilhas curtas trouxeram outra dimensão à atuação, com especial destaque para a primeira delas, bem rematada com um recorte de grande expressão. Acabou em alta e confirmou o bom momento que atravessa.
Nas pegas, a luz mudou de forma e passou a medir-se em coragem.
Pelo Grupo de Forcados Amadores do Cartaxo, Tiago Fonseca teve pela frente um toiro que se arrancava com facilidade quando citado de frente e que mostrava muita pata assim que via o homem. O forcado esteve competente no momento da reunião, fechando-se com garbo e sem permitir que os derrotes o desalojassem da cara do toiro. O grupo entrou com precisão, consumando uma pega de boa nota ao primeiro intento.
José Oliveira enfrentou um toiro de leitura difícil, daqueles que ameaçam arrancar diversas vezes sem nunca revelar o momento exato da investida. Na primeira tentativa acabou surpreendido e não conseguiu reunir com a decisão necessária. À segunda corrigiu a leitura, aguentou a investida e contou com uma ajuda providencial que impediu o toiro de o desalojar.
Bernardo Sá encontrou uma investida áspera logo na primeira tentativa, sendo despejado na arena após um derrote por alto seguido de outro por baixo. Voltou à cara do toiro e, na segunda, suportou a violência da arrancada e fechou-se com determinação, rubricando uma pega de muito mérito.
Pelos Académicos de Coimbra, Francisco Gonçalves enfrentou um toiro que desde cedo fazia prever problemas. Foi difícil retirá-lo dos seus terrenos através de um cite frontal, obrigando o forcado a penetrar no reduto da rês para conseguir provocar a arrancada. Esta surgiu de forma extemporânea e surpreendeu o homem da cara, que não conseguiu reunir com eficácia. A solução encontrada passou pela sorte a sesgo, consumada à segunda tentativa com ajudas carregadas.
Poder-se-á discutir a opção técnica, mas dificilmente se poderá questionar a lucidez da decisão e, sobretudo, a honestidade de recusar uma volta que as circunstâncias não justificavam. Também aí houve luz.
António Pinto Basto encontrou um adversário exigente. Na primeira tentativa, com alguma culpa no cartório não conseguiu fechar-se perante uma investida pronta e com muita pata. Na segunda, logrou acoplar-se no momento da reunião, mas a ausência do grupo junto às tábuas impediu a consumação da pega. Só à terceira, numa demonstração de entrega e persistência, conseguiu resolver a papeleta.
A responsabilidade de pegar o último da noite coube a João Gonçalves Rama. Na primeira tentativa saiu da cara da rês, motivo pelo qual o cabo ordenou nova ida. À terceira, e com ajudas carregadas, resolveu o problema, encerrando uma noite em que os forcados demonstraram, uma vez mais, que a coragem também tem a sua própria luminosidade.
Dirigiu a corrida o delegado técnico tauromáquico Manuel Gama, assessorado pelo médico veterinário José Luís Cruz.
No fim, quando a lua continuava suspensa sobre a praça, percebeu-se que a luz das velas não se tinha extinguido com a procissão. Apenas se tinha dispersado. Umas vezes em forma de arte, outras de bravura, outras ainda de simples resiliência. No Cartaxo houve lugar a uma noite em que a física explicou os fenómenos, mas foi a tauromaquia quem lhes acabou por dar significado.
Foto e Texto: Rodrigo Viana
