Nos meses de Verão, a lezíria não dorme.
As estradas entre Salvaterra, Marinhais, Glória e Benavente transformam-se num rio lento de pó, tomate e motores. Passam tratores carregados até ao céu, reboques vermelhos a transbordar fruto maduro, homens queimados pelo sol e máquinas que conhecem cada palmo da terra como um campino conhece a lezíria ao romper da manhã. É o tempo da campanha do tomate: o verdadeiro relógio agrícola do Ribatejo.
E como em todas as campanhas, também aqui há hierarquias, temperamentos e marcas que ganharam fama quase lendária. Há tratores feitos para aguentar sem vacilar, outros para correr estrada e campo com velocidade impressionante, outros ainda que parecem carregar décadas de tradição no próprio ronco do motor. Nomes que, nesta época do ano, se ouvem tanto como os pregões das festas: John Deere, New Holland, Fendt, Massey Ferguson… máquinas que não são apenas máquinas, mas diferentes formas de enfrentar a dureza da terra.
Foi precisamente esse espírito que entrou no tauródromo salvaterrense nesta denominada Corrida do Tomate. Porque também os seis toiros a concurso apareceram como marcas distintas de uma mesma campanha agrícola. Uns surgiram pesados e difíceis de mover, como tratores feitos para terrenos duros e enlameados; outros mostraram mobilidade, transmissão solta e andamento vivo, como máquinas preparadas para responder rápido entre campo e estrada; e houve ainda aqueles que, apesar da imponência, revelaram pouca alma no motor, incapazes de transformar potência em rendimento.
Na arena, os exemplares das diferentes ganadarias substituíram os sulcos da terra e quiseram mostrar qual teria melhor textura, melhor sabor e maior capacidade de resistência. No fundo, o desafio dos artistas era semelhante ao dos homens da campanha agrícola: perceber o terreno que pisavam, dominar a força bruta que tinham pela frente e nunca perder o compasso perante as dificuldades do percurso.
O primeiro toiro a sair à arena, teve lide a cargo do cavaleiro Francisco Palha, sendo pertença da ganadaria Foro do Almeida. Era volumoso, castanho de capa, mostrou pouco voluntarismo e desde cedo adiantou-se às montadas do ginete. Tinha a robustez pesada daqueles velhos Massey Ferguson feitos para trabalho duro, muita estrutura, mas pouca elasticidade no andamento. Após uma fase de compridos onde procurou medir a investida da rês, optou por iniciar a fase de curtos com sortes com batida ao pitón contrário, sorte que tanto gosta executar. Perante a atitude passiva e pouco colaborativa do animal a abordagem não é a mais adequada e arrisca-se a que o momento do ferro nem sempre resulte, o que sucedeu logo na primeira ocasião em que o tentou, consentido um forte toque, acabando por passar em falso. Destacou-se na terceira curta da série, ferro no qual acabou por levar a água ao moinho, conseguindo qualidade no momento da cravagem.
O quarto da tarde, castanho chorreado de capa, com ferro de Manuel Veiga, foi manso encastado, arreando de forma extemporânea o que permitiu a Palha nalguns momentos pôr em prática o toureio que sente e bem sabe executar. Tinha mudanças repentinas de andamento, como certos New Holland modernos que tanto parecem ir dóceis em estrada como subitamente descarregam toda a potência em terreno pesado. A primeira bandarilha curta é impactante e de execução brilhante, consentindo uma investida solta, batendo ao pitón contrário e deixando de alto a baixo, o que motivou que soasse o pasodoble Forcados do Sul.
Na seguinte, tentou seguir o receituário, aguentou uma barbaridade mas acabou tocado junto a tábuas. O restante da sua atuação foi pautado pela regularidade.
O exemplar de Lima Cabral, castanho chorreado de capa, era cornalão e embora consideravelmente mais curto tinha mobilidade e som na investida. Era como um Fendt: compacto, moderno, de transmissão fluída e resposta imediata ao comando. Teve mérito Luís Rouxinol Jr. na forma como se acoplou com o toiro, iniciando com um comprido de bastante qualidade, lidando com a mesma montada durante toda a sua estadia no ruedo. Embora passando em falso antes da primeira bandarilha da série, tal vontade teve de armar o braço, desenhou uma das melhores lides que lhe observei nas duas últimas temporadas. Foi soberbo na forma de preparar as sortes, sem qualquer auxílio dos seus peões de brega, encarando o animal de qualidade superior que teve por diante, sem enganos, citando de frente, cravando en su sítio, cinco curtas de excelente nota.
O ensabanado com ferro de Fernando Palha, foi recebido com um comprido em sorte de gaiola, sendo notória a vontade de triunfo. Tinha a fiabilidade e desenvoltura de um John Deere em plena campanha agrícola: motor constante, andamento vivo e capacidade de nunca quebrar o ritmo. Brega extraordinária, sortes bem conseguidas e realizadas de forma templada motivam uma clara vontade de o rever em breve. Quando assim é, a tauromaquia ganha! Foi tudo perfeito? Não. Nem é isso que se exige. Exige-se qualidade e essa existiu. Uma passagem em falso não é carimbo de lide negativa como um ferro de qualidade nunca poderá ser carimbo de lide positiva. Que o Luís, esta tarde perceba, que os excessos e enganos na vida nem sempre nos encaminham ao sucesso. Hoje não os cometeu e venceu, com larga margem!
O terceiro da tarde, cardeno de capa, tinha ferro de José Dias e era o único cinqueño a concurso. Embora se diga, com alguma verdade, que todos os toiros têm a sua lide, para aquilo que é o contexto de espetáculo que as pessoas que pagam bilhete apreciam, este não deu qualquer veleidade a António Telles Filho. Parecia daqueles tratores antigos de grande porte que impressionam pela estrutura mas cuja transmissão já não acompanha a potência do motor. Era manso e sem casta motivo pelo qual foi necessário recorrer a sortes a sesgo logo no segundo comprido. Houve espírito de sacrifício e resiliência até excessiva, por parte do ginete da Torrinha para o tirar da sua querença, o que acabou por conseguir, não tendo a capacidade sobre-humana, ainda assim de pôr aquilo que o toiro não tinha: som. Deixou uma série de bandarilhas curtas, sem grandes momentos a recordar.
Fechava o concurso o toiro de Torre de Onofre, burraco de capa e que por esse motivo gerou interesse entre o conclave mas que se mostrou insípido no que toca ao comportamento. Tal como certos tratores de estética irrepreensível que chamam atenção à primeira vista mas depois não conseguem rendimento no campo, também este deixou aquém aquilo que prometia pela presença. António foi infeliz no lote que lhe tocou, não tendo possibilidades de triunfo perante a matéria-prima que enfrentou. Destaque para a segunda bandarilha da série de curtos numa tarde em que as coisas não resultaram. Perante a adversidade, cabe continuar a trabalhar e esperar que novas oportunidades surjam!
No que respeita aos forcados, viveu-se um interessante duelo entre duas formações do distrito de Lisboa, ambas determinadas em deixar marca numa tarde de exigência considerável.
Pelos Amadores de Lisboa abriu praça José Duarte, com o toiro a sair ligado ao forcado. O momento da reunião foi razoável, ainda que nunca se tenha conseguido fechar de pernas com total eficácia. Foi resiliente, aguentando uma viagem longa e dura, faltando maior decisão nas ajudas, circunstância que impediu a consumação da pega à primeira tentativa. À segunda, e após uma primeira ajuda importante que permitiu ao forcado da cara fechar-se melhor, ainda que acabasse maltratado na arena, conseguiu finalmente efetivar a pega.
Tomé Batalha enfrentou depois um toiro com dificuldade em fixar-se no local eleito pelo cabo, vendo-se obrigado a captar-lhe a atenção de forma pouco ortodoxa. Não conseguiu mandar na investida, recebendo-o e fechando-se sem especial brilhantismo na tentativa inicial. Valeu a coesão do grupo, que não permitiu ao toiro cumprir a vontade cobarde de se tirar da cara.
Fechou a atuação do grupo Tiago Silva, protagonizando uma pega consistente. Destacou-se desde logo pelo cite ruidoso, antes de se fechar “que nem uma lapa” numa viagem limpa, sem derrotes, com entrada pronta e eficaz do restante grupo.
Pelos Amadores de Vila Franca de Xira, Guilherme Dotti voltou a confirmar aquilo que muitos já lhe reconhecem: é um dos forcados com mais alma da sua geração. Demonstrou maturidade durante toda a sua permanência em praça e, após reunir com enorme determinação, suportou um derrote por alto ainda antes da formação conseguir fechar a sorte na tentativa inicial.
André Câncio teve pela frente um oponente complicado. Foi incapaz de reunir ao primeiro intento face ao brusco derrote que o astado lhe infligiu. Na segunda tentativa, o toiro voltou a derrotar por alto, não lhe concedendo hipóteses de acoplamento. Só à terceira, já com o primeiro ajuda carregado, conseguiu a formação vilafranquense alcançar os objetivos a que se propunha.
Coube a Rodrigo Camilo encerrar a tarde para o grupo ribatejano, tendo mérito na forma como se fechou num momento de reunião potencialmente complicado, já que o toiro trazia a cara por alto. Consumou a pega à primeira tentativa, com categoria e segurança.
A corrida, antecedida por um minuto de silêncio em memória de Fernando Ferreira, antigo forcado da formação da capital, foi dirigida, com alguma falta de critério, pelo delegado técnico tauromáquico Marco Cardoso, assessorado pelo Dr. José Luís Cruz e pelo cornetim José Henriques.
No capítulo dos prémios, atribuídos por um júri composto pelos próprios ganaderos presentes, o troféu de apresentação foi entregue à ganadaria Torre de Onofre, enquanto o prémio bravura distinguiu o exemplar de Fernando Palha. Teria sido merecido dar destaque ao toiro com ferro de Lima Cabral, que acabou esquecido. A lotação da praça rondou os dois terços fortes num concurso ganadeiro que, apesar das diferenças de comportamento entre os astados, acabou por resultar entretido.
Foto e Texto: Rodrigo Viana

