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Azambuja – A partitura da Feira de Maio!

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By Redação on 31 de Maio, 2026 Crónicas, Destaques
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Na Azambuja, a festa não começa com o primeiro toque do cornetim. Começa muito antes. Começa quando as tertúlias abrem portas, quando o vinho acompanha as conversas demoradas, quando os campinos conduzem o gado pelas ruas da vila e quando a música se espalha pelo ar antes mesmo de aparecer o primeiro toiro.

A Feira de Maio tem esse dom raro: consegue transformar uma localidade inteira numa pauta musical ribatejana.
Há o som seco dos cascos nas travessas e nos largos, o eco dos pregões, os acordes que saem do palco, sempre apinhado de gente, e até o silêncio respeitoso das homenagens prestadas àqueles que ajudaram a construir a identidade desta terra.

Talvez por isso a corrida desta tarde pudesse ser lida como uma composição musical. Afinal, na Azambuja, a tauromaquia nunca vive isolada, faz parte de uma melodia maior onde cabem a tradição, a memória, a música, o campo e o orgulho de um povo que continua a celebrar as suas raízes. Na arena, mais do que lidar seis toiros, tratava-se de encontrar a nota certa para cada pulsação.

O primeiro dos Vale Sorraia a pisar a arena apresentava, como os restantes, capa cardena e trouxe consigo uma sonoridade pouco convencional. Não era fandango nem pasodoble. Era antes um daqueles temas de sludge metal, pesados, imprevisíveis e difíceis de decifrar à primeira audição. Saiu desligado e com o comportamento típico dos animais de casta portuguesa, exigindo um toureio de proximidade, muito ligado à voz e à compreensão do seu temperamento para que não se abstraísse do seu lidador.
Teve mérito Gilberto Filipe na forma como leu o oponente que tinha pela frente, adaptando a lide às suas características em vez de procurar impor-lhe um guião pré-definido. A forma como preparou a sorte antes da primeira curta e, sobretudo, o momento da cravagem da terceira bandarilha da série, privilegiando a investida e reunindo a preceito nos médios, constituíram os pontos altos de uma atuação positiva do cavaleiro da Atalaia, que soube escutar aquilo que o toiro lhe pedia e lidar em conformidade. Após um intervalo de duração excessiva, próximo dos vinte minutos, motivado pela homenagem ao Sr. Custódio Inácio, figura merecedora de todo o respeito e reconhecimento, regressou à arena o mais antigo cavaleiro de alternativa anunciado. O segundo exemplar do lote de Gilberto Filipe teve um comportamento cumpridor, mas sem capacidade para transmitir emoção às bancadas. Faltou-lhe aquela centelha que transforma uma melodia correta numa composição memorável. Ainda assim, o cavaleiro da Atalaia manteve o registo de profissionalismo e entrega evidenciado no primeiro da tarde, procurando extrair o máximo das condições que tinha pela frente. Terminou a sua atuação com dois ferros em sorte de violino, destacando-se o último, executado com a montada sem cabeçada, apontamento de dificuldade acrescida que mereceu reconhecimento do público.

A João Moura Caetano correspondeu o único cinqueño do curro. Também aqui a melodia esteve longe de ser harmoniosa. Andarilho, incómodo e com um momento de reunião brusco, trazendo a cara por alto, o toiro obrigava a uma afinação muito rigorosa das distâncias. Essa sintonia não surgiu de imediato e duas passagens sem efetivação da cravagem marcaram o início da série de curtos. Com o decorrer da lide, a mobilidade foi-se esgotando e a música perdendo intensidade. O que começou com algum ritmo terminou em tom menor, sem reação nos médios da praça e sem sequer responder ao terceiro curto da série, momento em que o ginete de Monforte entendeu que a partitura estava esgotada. A decisão de abreviar a lide não foi consensual junto de uma parte dos espectadores, que não viu com bons olhos a saída prematura do cavaleiro da arena. João Moura Caetano voltou depois ao ruedo para enfrentar um astado bisco da ganadaria titular da corrida, exemplar bastante mais colaborador do que aquele que abrira o seu lote. A música mudou de tom. Se no primeiro tinha encontrado uma partitura desconexa e difícil de interpretar, agora surgia um andamento mais fluído, permitindo ao cavaleiro mostrar algumas das qualidades que lhe são reconhecidas. Montando o Ouro Negro, esteve a gosto e destacou-se particularmente nas duas primeiras bandarilhas curtas da série. Na terceira, porém, o toiro adiantou-se de forma brusca e inesperada, criando um momento de maior embaraço, onde houve estrelinha para o ginete de Monforte, que escapou pelo estreito espaço que se abriu perante si e evitou uma colhida que parecia iminente.

O terceiro exemplar saído dos currais da Praça de Toiros Dr. Ortigão Costa foi aquele que melhores condições de lide ofereceu. Nobre na investida e colaborante, surgiu como o primeiro verdadeiro fandango da tarde, daqueles que convidam o intérprete a arriscar mais um passo e a prolongar a dança. O início da atuação foi algo fosco, com as distâncias mal medidas e uma passagem em falso fruto de uma batida ao pitón contrário demasiado precoce. Porém, na bandarilha seguinte, o cavaleiro corrigiu a leitura, aguentando em suspenso até que o toiro investisse para deixar um ferro cingido. Foi, no entanto, quando mudou a abordagem para sortes frontais que a lide ganhou outra dimensão. A música encontrou finalmente o compasso certo, o ambiente cresceu nas bancadas e o conclave respondeu com justiça ao labor desenvolvido. O fecho da atuação, com dois palmitos de boa nota, deixou o tauródromo em ambiente de triunfo e com parte do público de pé.

Fechou a corrida, o último exemplar da divisa coruchense, um toiro de excelente apresentação, verdadeira estampa em praça. Porém, aquilo que prometia pela presença não encontrou correspondência no comportamento. Criou rapidamente querença junto à porta de cavalos e revelou escassas condições para a lide, podendo enquadrar-se no conceito de mansidão. Foi uma atuação difícil para Parreirita Cigano, obrigado a recorrer a sortes a sesgo na tentativa de provocar alguma reação que nunca chegou verdadeiramente a aparecer. Não houve som nem transmissão, mas merece registo a forma como o cavaleiro nunca virou a cara à luta e procurou, até final, dignificar a matéria-prima que tinha pela frente.

No que respeita aos forcados, viveu-se um duelo entre formações vizinhas, ambas apostadas em deixar a sua marca.

Pelos Amadores da Azambuja, Rúben Mendes foi o eleito pelo novel cabo João Gonçalves para abrir praça. Na primeira tentativa, o momento da reunião não foi o ideal, ficando a sorte desfeita praticamente desde o início. À segunda, e embora nunca tenha existido total acoplamento entre o forcado e a rês, acabou por consumar a pega a três tempos, sem especial brilhantismo, mas com eficácia. A terceira pega da tarde coube a Pedro Lourenço. Encontrou dificuldades no momento de reunir, não recuando o suficiente para consentir a investida do astado, que lhe passou ao lado em mais do que uma ocasião. À terceira tentativa conseguiu finalmente fechar-se e concretizar sem dificuldades de maior. Coube ao cabo João Gonçalves encerrar a atuação da formação da casa. Esteve irrepreensível desde o momento em que pisou a arena até saltar a trincheira após a consumação da pega. Demonstrou serenidade, capacidade de leitura e excelente conceito da sorte, fechando-se como uma lapa na cara de um toiro que se arrancou com pata e foi pelo seu caminho. Consumou ao primeiro intento e rubricou a pega da tarde.

Pelo Grupo de Forcados Amadores de Arruda dos Vinhos, Hélder Silva esteve exemplar na forma como dominou os tempos da pega. Avançou com critério, captou a atenção do toiro e reuniu com autoridade, conseguindo tapar-lhe a cara e retirar-lhe a brusquidão que vinha demonstrando. Houve uma primeira ajuda de destaque e uma prestação coletiva sólida que não permitiu veleidades ao astado. Nuno Aniceto consumou ao primeiro intento. Embora tenha consentido um pitón no peito durante a reunião, conseguiu aguentar-se com convicção e firmeza, agarrando-se ao toiro até à efetivação da sorte. Rodrigo Gonçalves encontrou maiores dificuldades para sacar uma investida ao seu oponente. Na primeira tentativa não conseguiu reunir com a qualidade necessária, mas corrigiu na segunda ocasião em que o toiro se decidiu a investir, consumando sem brilhantismo, mas de forma eficaz.

A corrida, que contou com uma lotação a rondar os três quartos, teve direção a cargo do delegado técnico tauromáquico Manuel Gama, assessorado pelo Dr. José Luís Cruz.
Quando o sol se despede da lezíria e o último toque do cornetim de José Henriques ecoa pela praça, a feira continua pelas ruas da vila, nas tertúlias, nos reencontros e nas conversas que se prolongam pela noite dentro. Porque a Azambuja nunca foi apenas uma corrida de toiros. É um encontro entre gerações, uma afirmação de identidade e uma celebração coletiva da cultura ribatejana.
A corrida desta tarde foi mais um capítulo dessa história. Com os seus momentos de brilho, as suas dificuldades e os seus protagonistas, acrescentou mais algumas notas à partitura de uma festa que atravessa décadas sem perder a alma.
E quando tudo termina, permanece a sensação de que há lugares onde a tradição continua viva porque as pessoas se recusam a deixá-la morrer. A Azambuja é um desses lugares. Como canta Miguel Ouro: “Isto é Azambuja, isto é tradição, isto é Ribatejo de pura emoção.” E poucas frases poderiam resumir melhor aquilo que se viveu dentro e fora da praça nesta tarde de Feira de Maio.

Foto e Texto: Rodrigo Viana

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